05 de novembro, 2017
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TIJOILAÇO: A “nota mil” na redação de Carmem Lúcia, por Gustavo Conde

Gustavo Conde é linguista e professor de redação. Envia-me este texto, que publico tanto por sua dor quanto pelo fato de que alguém, um dia, faça chegar a Cármem Lúcia a redação que ele imagina e que ela incentiva. Por Fernando Brito, no TIJOLAÇO em 05/nov/2017

“É com muita dor que faço uma redação em forma de paródia-denúncia, estarrecido com a decisão unilateral, apressada e chocante da ministra Cármen Lúcia em não zerar redações que violem direitos humanos no Exame Nacional do Ensino Médio. A sociedade brasileira que já sofre com a violência do Estado não merecia um ato de tamanha violência simbólica do tribunal máximo da república. É o nosso AI-5.

Para um professor que passou anos preparando alunos para respeitar os direitos humanos e que sabe da imensa importância técnica deste critério de correção para a qualidade do debate, do texto e para a construção da cidadania, é humilhante ser obrigado a ver uma decisão dessas em plena e suposta democracia.

O instrumento de zerar a prova de redação que viole direitos humanos não é apenas um critério de correção, como defendeu a ministra em seu texto: é um procedimento de indução do debate público qualificado e cidadão, é uma poderosa ação simbólica que irradia consciência, solidariedade e sentido de liberdade para a sociedade brasileira.

Hoje, posso dizer que me sinto envergonhado diante dessa instituição que atende pelo nome de STF e, sobretudo, por sua presidente. Segue a redação-denúncia. Não é uma leitura leve e peço desculpas por redigir peça tão violenta. Mas, talvez, ela seja importante do ponto de vista pedagógico e histórico, para que esse ato suicida de um tribunal confuso possa ser devidamente combatido em sua verdadeira dimensão imoral. É para chorar e se indignar.

[NOTA: DO PONTO DE VISTA TÉCNICO, É UMA REDAÇÃO QUASE PERFEITA: EM NORMA CULTA, TEMA, COERÊNCIA E COESÃO, TERIA A NOTA MÁXIMA OU QUASE A MÁXIMA. ATÉ A PROPOSTA TAMBÉM SERIA “BOA”, PORQUE ELA ESTÁ “TECNICAMENTE” ORGANIZADA. UMA REDAÇÃO, SEM O ZERO DA VIOLAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS, PRATICAMENTE NOTA MIL].

A falácia dos direitos humanos, Autor imaginário, mas menos do que se imagina

‘Desde os primórdios da humanidade, o homem fala em direitos humanos. E sempre que se fala em direitos humanos é para defender bandido. O sujeito rouba, mata e estupra e a sociedade é obrigada a respeitar os direitos humanos dele. Pessoas assim nem podem ser chamadas de pessoas: são subgente. Merecem apodrecer na cadeia, sendo torturadas e humilhadas.

Uma instituição que tem sido exemplar no combate à falácia dos direitos humanos é o STF. Um dos lugares em que mais se mata no mundo são os presídios brasileiros, e a sociedade apoia isso, pois percebe que há uma instituição séria que também apoia. A presidente do STF, a ministra Cármen Lúcia, visitou recentemente os presídios brasileiros, testemunhou as condições precárias e merecidas desses indigentes e, muito acertadamente, nada fez. O STF tem o apoio de toda a sociedade do bem, que quer a morte de todos esses negros assassinos que só oneram o Estado.

Índios, moradores de rua, sem-terra, sem-teto, homossexuais, negros, deficientes, mulheres pseudo vítimas de violência, crianças delinquentes, toda essa população merece o que lhes ocorre nesse preciso momento: a indiferença do Estado, que tem que se preocupar com as pessoas que trabalham, pagam seus impostos e sustentam suas famílias. Mais do que isso: eles merecem a limpeza étnica que os governos estaduais, através de suas polícias, promovem há anos de maneira exemplar, em suas incursões nas periferias.

A sociedade do bem apoia o STF em sua cruzada contra essa mentira que é a defesa dos direitos humanos. Defesa de direitos humanos é defesa de bandido. É preciso que o STF intensifique sua admirável ação em continuar esmagando essa população que não merece viver, seja com sua indiferença, seja no contingenciamento de verbas para o sistema carcerário, seja punindo quem insistir em proteger bandido. A sociedade do bem tem uma inspiração para continuar combatendo as mentiras da defesa dos direitos humanos: o STF e sua presidente, a ministra Cármen Lúcia. Com essa instituição ativa, a sociedade brasileira vai limpar a toda a sujeira humana que ameaça a vida do cidadão de bem.”
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Uma prova é um exame de saber. E respeito ao ser humano é um saber - Por Fernando Brito, no TIJOLAÇO em 05/nov/2017

Pessoas – sim, são pessoas, embora irritantes – que vêm aos comentários desta página argumentam que a decisão de Cármem Lúcia de impedir o o zero nas provas de redação  que violentem abertamente os direitos humanos é, simplesmente, a defesa da liberdade de expressão.

Na Alemanha do pós-guerra, não conheço quem diga ser censura absurda a proibição de edições do Mein Kampf, de Adolf Hitler, mas não espero convencê-los assim.

O que está em jogo é outra coisa, não é ideologia. Defender que alguém seja espancado até a morte,  sugerir que alguém seja mutilado propositalmente, professar a convicção de que negros ou índios são seres inferiores ou que se pode manter relações sexuais forçadas com alguém, sobretudo uma criança não é pretender ser que esta pessoa seja “de direita” ou “de esquerda”, ou minha carola avó seria uma “bolivariana”.

Significa que esta pessoa, ao menos razoavelmente, completou aprendizado do mínimo de habilidades sociais para ser considerado um adulto merecedor  de ter seus estudos universitários, direta ou indiretamente, pagos ou subsidiados pela sociedade, através do Estado, porque mesmo as faculdades privadas o são, por isenções fiscais, renúncia tributária (desconto do IR) ou até financiamento estudantil.

Significa que se tenta fazer do ambiente universitário um lugar de encontro e confronto de ideias onde os argumentos não sejam “você merecia morrer”, “eu deveria estuprar você”, “crioulo é sub-raça”, ou, quem sabe, “lugar de judeu é no forno”.

Nos critérios da Justiça brasileira, ao que parece, isso importa menos que saber de cor a fórmula de Bháskara, aquele inesquecível b²-4ac. Quem tiver um “branco” de memória pode levar zero, quem tiver a escuridão na mente, não.

Não há proibição ou ameaça ao aluno que quiser, ainda que absurdo, pensar ou expressar-se assim. Haverá, sim, uma sanção: a instituição educacional pública, representada pelo professor-corretor, o afastará de um grupo que tem regras mínimas de convívio. Se admitirmos que isso é um atentado à liberdade de expressão, teremos de admitir, então, que um aluno pode xingar genericamente seus professores e colegas porque “tia” Cármem Lúcia lhe garante a “liberdade de expressão”.

É irônico pensar que, como há redações em concurso para juiz, as mesmas regras devam valer, pela jurisprudência que firma, para escolher os homens e mulheres que terão poder sobre a minha e a sua vida e liberdade.

Se o Direito, aliás, é a defesa da supremacia da simples técnica, do mérito em decorar Códigos e leis, porque mesmo não transformar a magistratura em atividade da qual se exige apenas o “2° grau”?

Assim, evitar-se-ia o Enem e o constrangimento de, por tecnicamente bem escrita, dar nota dez para um texto que se encerrasse com o fecho do fascio: “o que eu desejo para o Brasil é o dia em que possa gritar na rua, cara al sol à procura do futuro glorioso”.

– Heil, Mito!”
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