24 de julho, 2019

Sergio Moro e os antagonistas do jornalismo sério e relevante - parte 2 por Luiz Cláudio Cunha

Parte 2 - OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA - Com a elegância de não citar os antagônicos que abertamente “aplaudem e defendem” aquelas violações, a revista abandonou a pétrea defesa de Sergio Moro escancarada em violações, a revista abandonou a pétrea defesa de Sergio Moro escancarada em dezenas de capas ao longo de uma década e, no espaço de três semanas, produziu duas edições demolidoras para a imagem consagrada de quem ela mesma chamava de “grande herói da Lava Jato”. OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA - ARQUIVOS DA LAVA JATO > LIÇÕES DA IMPRENSA: por Luiz Cláudio Cunha (foto) em 23/07/2019 na edição 1047


Caindo a ficha: após capas de louvor, Veja vê o desmoronar do juiz parcial no espaço de 20 dias.

A meteorologia dos fatos - No domingo, 14 de julho, o grupo do jornalismo honesto ganhou o endosso do jornal espanhol El País, uma das publicações de maior credibilidade do mundo. Sem a preguiça dos antagonistas que detestam o esforço ritual dos bons repórteres, o El País fez uma incontroversa parábola: “Se alguém diz que está chovendo, e outra pessoa diz que não está, não é trabalho do jornalista citar as duas — é ir olhar lá fora”. Com a precaução de um guarda-chuva em um braço e a cartilha do jornalismo de investigação no outro, o jornal espanhol foi lá fora conferir a meteorologia dos fatos. É possível provar a veracidade das conversas, como garante o Intercept, sem comprovar a origem e a fonte dos vazamentos do Telegram? Conclusão do jornal:

O EL PAÍS testou este impasse. Com o auxílio de uma fonte externa ao The Intercept, que prefere preservar sua identidade, tivemos acesso a parte de um arquivo de mensagens de um dos chats mencionados nas reportagens e comparamos seu conteúdo com o material disponibilizado pelo site. O conteúdo é idêntico. À parte imagens, que não estavam disponíveis nos documentos consultados, as informações são as mesmas em ambos os chats e mostram o dia a dia de conversas de trabalho entre procuradores, assessores de imprensa e jornalistas. A partir deste material, identificamos outras conversas com potencial de verificação. Inclusive, mensagens do EL PAÍS com pedidos de informações enviados à Lava Jato puderam ser identificadas. […]

Ao ter acesso aos arquivos do The Intercept, vemos que a consulta ao material é artesanal, e depende de busca por termos em diversos chats – o site não mapeou o número total de documentos nem de chats disponíveis. A quantidade do material faz com que o processo de entrevista dos dados seja lento e bastante trabalhoso. A maioria das conversas traz apenas conteúdos corriqueiros que, certamente, não geram interesse público, logo, não haveria motivo para terem sido inventadas.”

Nem o antagonista mais asnático poderá sustentar a falácia de que Azevedo, Veja, Folha e El País formam uma inesperada ORCRIM, uma organização criminosa interessada apenas em sepultar a Lava Jato e colocar Lula em liberdade. A investigação ainda no início do Intercept, que já ganhou o reforço das equipes da revista e dos jornais de São Paulo e de Madri, além da adesão do influente jornalista da BandNews, antecipa coisas mais graves pela frente. Na semana passada, foi divulgado o primeiro áudio de Deltan Dallagnol e, segundo o colunista político Ricardo Noblat, de Veja, o total de arquivos de som chega a 2 mil.

Os números retumbantes apurados pela Lava Jato desde março de 2014 mostram que a maior investigação de corrupção da história brasileira, no seu conjunto, está muito acima dos desvios de conduta e abusos de poder de Sergio Moro. No Petrolão, foi apurado o rombo de R$ 6,5 bilhões em propinas e o total de ressarcimento pedido pela Justiça, incluindo multas, já supera os R$ 40 bilhões. A ação produziu até agora noventa acusações contra 429 pessoas, gerando 244 condenações que somam 2.250 anos de pena. Na rede da Polícia Federal, caiu pela primeira vez a fina flor da plutocracia nacional – os donos bilionários das treze maiores empreiteiras, que faziam a intermediação entre os executivos corruptos da petroleira e os desonestos palacianos e congressistas do poder federal em Brasília.

A massiva delação, em abril de 2017, de 78 executivos e dirigentes da Odebrecht, a maior construtora envolvida no Petrolão, levou o STF a pedir 83 inquéritos, envolvendo 29 senadores e 42 deputados federais (incluindo os presidentes do Senado, Eunício de Oliveira, e da Câmara, Rodrigo Maia), colocando na mira da Justiça uma malha pluripartidária envolvendo 108 políticos e agregados, junto com oito ministros do governo anterior. Além de Michel Temer e da cúpula do Congresso, os delatores citaram outros quatro ex-presidentes: Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Só Lula teve o ciclo de punição completo: denunciado, processado, condenado e preso, sob alegações controversas, em ritmo acelerado e inusitado para a tradição da lerda Justiça brasileira.

A parceria DD-GG - Em setembro de 2017, a Lava Jato ganhou reconhecimento internacional. Competindo com 240 ações semelhantes de setenta países, ela ganhou Menção Honrosa como um dos três finalistas no chamado “Oscar anticorrupção”, o Allard Prize for International Integrity, conferido anualmente pela Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver, Canadá. Dallagnol estava lá, com três dos doze procuradores da força-tarefa, para receber o prêmio. A notícia foi publicada na página do Ministério Público do Paraná na internet, que apresentou assim o orador principal da cerimônia: “Um dos destaques da noite foi o discurso do jornalista, escritor e advogado norte-americano Glenn Greenwald. Especializado em direito constitucional e criador do site de notícias The Intercept, Greenwald ficou conhecido mundialmente por ter revelado, em reportagens publicadas pelo jornal britânico The Guardian, a existência de um programa secreto de vigilância global mantido pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos.”

Assim, em um único parágrafo, a própria Lava Jato – aparentemente colocada em risco pelo Intercept – conferiu a Greenwald os títulos de “jornalista, escritor, advogado e especialista em direito constitucional”, reverência factual que os mais abatatados antagonistas da verdade recusam com doentia, teimosa caturrice. E, para desespero dos sites bolsonaristas, a força-tarefa de Dallagnol ainda teve a gentileza de lembrar a ressonância mundial do trabalho de Greenwald e do The Guardian no vazamento sobre a espionagem planetária da NSA.

Dallagnol e Greenwald juntos na festa no Canadá: o jornalista elogia a coragem da Lava-Jato.

Dallagnol ficou tão entusiasmado com o que ouviu naquela noite festiva do próprio Greenwald, elogiado por ele, que publicou a saudação do jornalista em sua página pessoal do Facebook. E abriu assim sua mensagem: “O renomado jornalista Glenn Greenwald foi convidado para ser o palestrante da cerimônia de um prêmio a que a Lava Jato estava concorrendo em Vancouver, no dia 28 de setembro. Houve, contudo, uma campanha de algumas pessoas contra a premiação da Lava Jato. Na noite do prêmio, ele contou que recebeu mensagens pedindo que ele boicotasse o reconhecimento da operação, até porque ele próprio já havia discordado de alguns de seus episódios.”

Aqui, com o trecho mais relevante da fala de Glenn Greenwald, disponível no Facebook do procurador e no YouTube, é possível entender o motivo do entusiasmo e do reconhecimento de Deltan Dallagnol diante dessa inusitada parceria DD-GG. Leia:

[…] Houve uma campanha pública de pressão contra o prêmio para que a indicação fosse retirada, exigindo que eu cancelasse minha fala aqui, em protesto contra o que eles fizeram. Não obstante o fato de achar que eles cometeram alguns equívocos, eu nunca, nem por um segundo, cogitei fazer isso.

Quando se está no Brasil, um país que por décadas foi governado pela corrupção…. Não é um país onde há alguns políticos corruptos aqui e acolá. É um país que é governado por uma criminalidade organizada. Todo o sistema político é baseado em corrupção sistêmica. E isso foi feito por décadas em completa impunidade. Então, se você é um jovem procurador, na casa dos seus 30 anos – e vimos pelos vídeos que a maioria deles é -, e você quer enfrentar as pessoas mais ricas e poderosas, não há nenhum manual de instruções sobre como se faz isso, não há cartilha, não há um guia do que se pode fazer. Você vai cometer erros, você terá que ser engenhoso, você vai ter que tomar decisões difíceis. […]

Como um cidadão americano, vi meu próprio governo, no despertar do regime de tortura no ataque ao Iraque, protegendo todos os criminosos de guerra que estavam envolvidos, porque eles eram poderosos demais para prender. E protegendo os criminosos de Wall Street que causaram o colapso econômico de 2008, que causou sofrimento econômico em todo o mundo. Nenhuma pessoa de Wall Street foi para a prisão, porque eles também eram muito poderosos.

Assistir brasileiros numa jovem democracia colocando os seus bilionários mais poderosos na prisão e prendendo os políticos de todos os espectros partidários também, não obstante os erros que eu acho que eles cometeram, e as críticas embasadas que ocasionalmente foram externadas contra eles, é algo que eu considero extraordinariamente corajoso, digno de apoio e de ser homenageado.

Eu acho que o que podemos dizer à força-tarefa brasileira da Lava Jato é que eles definitivamente não foram perfeitos, mas que foram guiados por princípios e [foram] muito persistentes. E eles são realmente dedicados a essa ideia de que eles querem mudar a sociedade, de um modelo sistematicamente corrompido para um em que a lei prevaleça, não importa se você é um garoto negro e pobre da favela ou um oligarca absurdamente rico nascido em um berço de bilhões de dólares. Então eu acho que eles encarnaram muito bem essa virtude de ser comum, de não ter muito poder, mas ser dedicado a mudar o mundo.

A veia cômica dos antagônicos - Sob a suspeita do bolsonarismo de raiz de que, agora, ele e o Intercept estariam tentando destruir a operação tão elogiada no Canadá, Greenwald esclareceu essa aparente contradição para a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo: “Eu sou a favor da Lava Jato. Mostrar os erros cometidos só fortalece a operação”. Alguns antagonistas do bom jornalismo, os mesmos que chamam Greenwald de “suposto jornalista”, também insistem em carimbar Bergamo não como jornalista, mas como “colunista social”. Se não é uma dupla distorção da verdade, deve ser alguma anedota que ainda precisa ser explicada – o que é sempre ruim para qualquer piada digna de atenção.

Diante da dolorida incapacidade de desmentir o conteúdo cada dia mais perturbador das mensagens do Telegram, os bolsonaristas antagônicos procuram desqualificar o mensageiro – ou quem vazou as mensagens. Nesse tortuoso processo, o jornalista Greenwald, graças ao hilariante talento cômico dos bolsonários infiltrados nas redes sociais, foi vítima de uma divertida transliteração que o transformou em reles “Verdevaldo”. (Entenderam a piada?)
Ninguém ri, ao ler em um site bolsonarista, um texto supostamente jornalístico que se orgulha de ter acompanhados os trabalhos da Lava Jato “fanaticamente”. Isso não é engraçado, é apenas triste. Afinal, fanatismo não rima com jornalismo e um fanático jamais poderá dar lições de jornalismo aos jornalistas sérios que não sucumbem ao deboche nem se prestam à bajulação de mitos solidamente plantados nos coturnos da estupidez.

O juiz que Moro esqueceu - Em Nova York, em 1971, Murray Irwin Gurfein era a versão de um juiz mais velho, mais discreto e mais erudito do que seria em Curitiba o jovem Sergio Fernando Moro, que só nasceria no ano seguinte. Aos 35 anos, como tenente-coronel do Exército, já lutava na II Guerra Mundial nos quadros do predecessor da CIA – o secreto OSS, Office of Strategic Services, a agência de inteligência militar que coordenava ações de sabotagem e espionagem atrás das linhas inimigas do Reich nazista. Ao final da guerra, em 1945, ele se integrou à equipe norte-americana no Tribunal de Nuremberg para crimes de guerra como assistente do procurador Robert H. Jackson, que chefiava a equipe de acusação dos Estados Unidos.

Voltou no pós-guerra ao escritório de advogado, em Nova York, até retornar ao serviço público no início da década de 1970, indicado pelo presidente Nixon para um posto de juiz de primeira instância – como Moro – na corte do distrito sul da maior cidade americana. Foi confirmado pelo Senado em maio e, já na semana de estreia em seu tribunal, em 15 de junho de 1971, uma terça-feira, caiu no seu colo o mais rumoroso processo de sua carreira: uma ação da Casa Branca de Nixon pedindo, pela primeira vez na história americana, censura prévia para o The New York Times. No domingo, 13, o jornal começara a publicar os bombásticos detalhes secretos do envolvimento político e militar dos Estados Unidos na guerra do Vietnã, entre 1945 e 1967, em um estudo de 7 mil páginas produzido durante três anos por 36 especialistas (militares, acadêmicos e servidores civis) do Pentágono e carimbado como Top Secret-Sensitive.

Por ordem de Nixon, o procurador-geral John Mitchell pediu na segunda-feira, 14, que o Times voluntariamente interrompesse a publicação. Diante da recusa do jornal, entrou no dia seguinte com uma liminar na corte de Gurfein forçando o Times a cessar a divulgação, com três capítulos já publicados. Diante da ordem de restrição temporária do juiz, que o Times classificou como “um exemplo sem precedentes de censura”, seu vigoroso editorial de quarta-feira, 16, definia o papel de sempre da imprensa independente e comprometida com a verdade: “Como um jornal que assume seriamente sua obrigação e suas responsabilidades para com o público, nós acreditamos que, uma vez que esse material caiu em nossas mãos, não é somente do interesse do povo americano publicá-lo, mas, ainda mais enfaticamente, não o ter publicado seria uma abnegação de responsabilidade e uma renúncia de nossas obrigações sob a Primeira Emenda”.

O texto do Times poderia ser assinado pelo Intercept e por todos que publicam os diálogos incômodos do Telegram. Com uma definição memorável da luta épica que estava disposto a empreender contra o mais poderoso governo do planeta, o Times encerrava assim seu editorial: “Este é o esforço para expor e elucidar aquela verdade que é a essência da liberdade de imprensa”.

A lição do juiz Gurfein para o ministro Moro: “pela liberdade, a autoridade deve suportar uma imprensa rabugenta, obstinada”.

O país viveu o suspense das horas seguintes, enquanto aguardava a palavra final de Gurfein. Para ele, era um duro conflito existencial entre seu jornal favorito e o presidente que o conduzira à cadeira de juiz. Até que no sábado, 19, Gurfein deu ganho ao jornal, uma decisão que lhe garantiu um espaço merecido na memória da imprensa. Trecho de sua histórica decisão:

Se houver algum embaraço para o governo em aspectos de segurança, tão remotos quanto o constrangimento geral decorrente de qualquer violação de segurança, devemos aprender a viver com esse embaraço. A segurança da nação não está somente nas muralhas. A segurança também está no valor de nossas instituições livres.

Uma imprensa rabugenta, uma imprensa obstinada, uma imprensa onipresente deve ser suportada pelos que têm autoridade, a fim de preservar os valores ainda maiores da liberdade de expressão e o direito do povo de saber. Neste caso, não houve nenhuma tentativa do governo em supressão política. Não houve tentativas de sufocar as críticas. No entanto, em última análise, não é apenas a opinião do redator do editorial ou do colunista que é protegido pela Primeira Emenda. É o livre fluxo de informações para que o público seja informado sobre o governo e suas ações.

Estes são tempos difíceis. Não há maior válvula de segurança para o descontentamento e o cinismo sobre os assuntos do governo do que a liberdade de expressão em qualquer forma. Este tem sido o gênio de nossas instituições ao longo da nossa história. É um dos traços marcantes da nossa vida nacional que nos distingue de outras nações sob diferentes formas de governo.”

O governo Nixon apelou da decisão de Gurfein e recorreu à Suprema Corte. Após duas semanas de incerteza, na quarta-feira, 30 de junho, os ministros decidiram por 6 votos a 3 pelo direito do Times de retomar a publicação dos documentos, franquia estendida ao The Washington Post, que também recebera os papéis e passou a divulgá-los em 18 de junho, cinco dias após o seu concorrente. No seu voto favorável, o ministro Potter Stewart (1915-1985), que permaneceu quase 23 anos na corte, lembrou: “Sem uma imprensa livre e informada, não pode haver um povo iluminado”. A manchete do dia seguinte, quinta-feira, 1º de julho de 1971, traduzia a euforia do Times e de todos que não antagonizam a liberdade de imprensa: “Suprema Corte, 6-3, apoia os jornais na publicação do relatório do Pentágono; o Times retoma sua série, suspensa quinze dias”. Naquele dia histórico, o jornal voltou com plena carga, dedicando o número recorde de doze páginas da edição para dois novos capítulos da série, além de outras cinco páginas para os votos dos ministros e a repercussão política da decisão.

Histórica: para horror dos antagonistas ,a Suprema Corte garante a publicação dos papéis roubados.

A aula errada do professor Moro - É oportuno, aqui, voltar à intempestiva aula de jornalismo que Sergio Moro tentou dar na audiência no Senado, citando erroneamente os casos emblemáticos de Watergate e dos “papéis do Pentágono”. Na esperança de que o ministro não esqueça tudo de novo, vamos aos fatos.

No caso do Times, desmemoriado ou simplesmente ignorante, o professor Moro ensinou aos senadores que “os papéis do Pentágono foram sendo divulgados à medida que eles tinham alguma coisa”. Errado, professor. Quando o jornal tomou a decisão de publicar os documentos top secret, ele já tinha em mãos todo o material – 47 volumes, com 7 mil páginas e 2,5 milhões de palavras de um estudo do Departamento de Defesa, dissecando os bastidores do envolvimento americano no Vietnã entre 1945 e 1968.

A decisão de vazar é que foi longamente amadurecida pelo delator, o ex-comandante da Marinha e analista de estratégia Daniel Ellsberg, funcionário da Rand Corporation, um think tank contratado pelas Forças Armadas. O vazamento começou com uma crise de choro, durante uma hora, sentado no chão de um banheiro do Haverford College, da Pensilvânia, em agosto de 1969. Ellsberg acabara de ter uma epifania, emocionado com uma reunião da Liga de Resistência à guerra e com o discurso de Randy Kehler, um advogado pacifista que bradava contra o alistamento militar dos jovens e se dizia “excitado” pela possibilidade de se juntar aos seus amigos na prisão. “Não havia dúvida de que meu governo estava envolvido em uma guerra injusta que iria continuar e se tornar maior. Milhares de jovens estavam morrendo a cada ano”, pensou Ellsberg, antes de tomar a decisão de vazar o relatório do Pentágono.

Durante noites seguidas, levando o filho Robert, de 14 anos, como álibi, Ellsberg voltava depois do expediente aos escritórios da Rand para fotocopiar as 7 mil páginas do documento secreto, um ato criminoso que deixaria qualquer antagonista indignado. Ele lembrou então que, nos dois anos de trabalho que passou no Vietnã, em meados dos anos 1960, conhecera um repórter do Times.

Os papéis do Pentágono, que reconheciam secretamente que a guerra não tinha futuro e que a derrota era inevitável, foram vazados por Ellsberg para um velho conhecido do Vietnã, Neil Sheehan, 34 anos, repórter do The New York Times, tido como um teimoso descendente de irlandeses que acordava tarde e escrevia ferozmente entre uma e quatro horas da madrugada. Ellsberg tinha encontrado o sujeito e o instrumento certos para seu empreendimento. O repórter Harrison E. Salisbury, que vazou para o mundo o discurso secreto do premiê Nikita Khrushchev ao congresso do PC soviético, em 1956, denunciando os crimes de Josef Stálin, definia assim o Times: “Era o mais completo, minucioso e responsável diário que o tempo, o dinheiro, o talento e a tecnologia na segunda metade do século XX eram capazes de produzir”.

Desde 1896, quando Adolph S. Ochs comprou aquele pequeno jornal para torná-lo uma lenda do jornalismo, a redação era movida por um lema que hoje faz falta ao bom jornalismo de todas as latitudes: “Dar a notícia de forma imparcial, sem medo ou favor, independentemente de qualquer partido, seita ou interesse envolvido”. Nos anos 1970, afrontar ao mesmo tempo o Pentágono dos falcões do Vietnã e a Casa Branca de Richard Nixon era tarefa para poucos ou para loucos, sem medo ou favor. Só podia ser coisa para o Times do velho Adolph.

A redação clandestina do Times - Divulgar os segredos e a velada autocrítica do assustador complexo industrial-militar era uma tarefa portentosa, mesmo para um jornal tão destemido. Tom Wicker, um de seus maiores repórteres, resumiu: “A publicação dos ‘papéis do Pentágono’ foi a mais celebrada violação da segurança nacional dos tempos modernos”.

Por isso mesmo, exigiu cuidados extremos, que mostram a obstinação de uma pauta que movia montanhas. Não era possível trabalhar um material tão sensível no burburinho do terceiro piso do velho prédio de quinze andares do Times, no número 229 da rua 43. Ali, a redação ampla e aberta ainda não tinha os cubículos e baias que retalharam o espaço a partir de 1978, quando chegaram os computadores. Não era um bom ambiente para trabalhar e digerir com calma os 47 volumes sensíveis e nervosos do Pentágono.

A sede antiga do Times e a redação paralela oculta no Hilton: a 400 metros do burburinho.

A solução foi descer até o térreo, dobrar 140 metros à esquerda, até a 7ª Avenida, descer outros 90 metros até a rua de baixo e andar mais 170 metros até o número 234 da rua 42, onde ficava o hotel Hilton Times Square. Ali, 400 metros distante da redação barulhenta, o Times discretamente instalou a sua força-tarefa, comandada por Sheehan e integrada por outros três editores, quatro repórteres, cinco secretárias, um pesquisador, um diagramador, três grandes cofres e vários guardas de segurança do jornal, que não faziam ideia do que vigiavam ali, 24 horas ao dia. De acordo com o código da equipe, no yellow floor (andar amarelo) ficava a suíte 1107, base de trabalho do solitário Sheehan. Todos os outros se distribuíam pelos quartos do blue floor (andar azul), no 13º piso do Hilton. Apenas uma empregada do hotel tinha permissão para limpar os quartos que abrigavam o Projeto X, como era chamado. Nos dias de folga, a sala permanecia sem qualquer aspirador e sem faxina.

Todas as folhas de rascunho e páginas amassadas na rotina agitada daquelas quinze pessoas eram recolhidas cuidadosamente em sacolas no fim do dia e levadas de volta para a redação da rua 43, onde eram trituradas. O jornal sabia do poder de seus inimigos e também vivia a paranoia de estar sob vigilância. Nas manhãs serenas de domingo, o chefe da segurança do edifício-sede do Times fazia cuidadosa vistoria e a troca das linhas telefônicas do terceiro (redação), décimo (editorial) e décimo-quarto (editoria-executiva) andares. O dono do jornal, Arthur Ochs Punch Sulzberger, tinha seu escritório varrido regularmente em busca de escuta telefônica.

O editor-executivo do jornal, o experiente Abe Rosenthal, vivia um pesadelo recorrente quando dormia: via Nixon em rede nacional de TV, tendo ao lado os outros três presidentes vivos (Truman, Eisenhower e Johnson), vociferando contra o vazamento da papelada do Pentágono pelo Times.

Ao contrário do que pensa o desmemoriado Sergio Moro, não foi uma operação casual, em que se divulgava de forma paulatina, “à medida que eles tinham material”. Foi uma manobra pensada, calculada, que exigia uma articulação monumental para preparar o material de 47 volumes, selecionar, editar e publicar. Os editores tiveram que conferir meticulosamente o que as fontes do governo disseram para consumo público e comparar com a história secreta dos documentos, a verdade enfim por trás das cenas. Quando decidiu publicar tudo, Punch Sulzberger chamou à sua sala o editor-executivo Rosenthal e o chefe da sucursal de Washington, Max Frankel, na manhã de sexta-feira, 11 de junho, para anunciar: “Eu decidi que vocês podem usar os documentos, mas não a história”. Segundo a rígida determinação de Punch, sempre que possível, era reproduzido o documento original, naquele estilo duro, tedioso, cheio de siglas do burocrático jargão militar. O mais importante, segundo ele, era mostrar as vísceras das decisões secretas, sem qualquer firula jornalística.

A reação do vigarista - Na vida real, o esforço teve suas vantagens. O jornal, que tinha uma tiragem de 815 mil exemplares na semana, preparou uma edição especial de 1,5 milhão de exemplares naquele domingo histórico, 13 de junho de 1971. Nas primeiras horas do dia, Nixon não ficou chateado, porque achou que o relatório escoado batia mais nos seus antecessores democratas, John Kennedy e Lyndon Johnson. Só entendeu a gravidade do vazamento quando foi alertado por um telefonema desde a Califórnia de seu assessor de segurança nacional, Henry Kissinger.

Só então o presidente ficou furioso: “Temos que botar essa gente na fogueira por este tipo de coisa… Vamos botar esses filhos da puta na cadeia! ”, trovejou, convencido a ir aos tribunais para evitar um grave precedente de escoamento de informações sensíveis que poderiam, em seguida, atingir seu governo. A primeira reação da Casa Branca na Justiça bloqueou novas edições e o Times teve que suspender sua série por duas semanas.

Esperto, Ellsberg vazou cinco dias depois os papéis do Pentágono para o concorrente, o The Washington Post, dando trabalho dobrado aos advogados de Nixon. E o vazamento virou inundação quando Ellsberg repassou documentos a outros dezessete jornais do país, só para chatear a Casa Branca. Era um crime continuado e ampliado, o que chocaria qualquer antagonista do bom jornalismo.

Nixon e seus ‘encanadores’: com eles entrou em Watergate, por eles renunciou à Casa Branca.

O processo na Justiça, como já se viu, subiu para a Suprema Corte, onde o Times acabou ganhando por 6 a 3. Derrotado, Nixon quis se vingar do informante e mandou vasculhar a vida de Daniel Ellsberg. E ouviu de seu chefe da Casa Civil, John Ehrlichman, uma boa ideia: em 24 de julho de 1971, um mês e onze dias após a revelação dos “papéis do Pentágono”, foi criada a unidade secreta dos “encanadores da Casa Branca”, que tinha a nobre missão de evitar novos vazamentos.

Em agosto, dois assessores de Ehrlichmann se reuniram em uma sala do porão da Casa Branca com o chefe dos “encanadores”, G. Gordon Liddy, um ex-agente do FBI, e E. Howard Hunt, ex-agente da CIA. Saíram de lá com sua primeira missão secreta: invadir o escritório do psiquiatra Lewis Fielding em busca da ficha médica de seu paciente, Daniel Ellsberg. A invasão aconteceu no início de setembro, com a dupla Liddy-Hunt engrossada por mais três ex-agentes da CIA, mas foi um fracasso: não havia nada no histórico médico que pudesse ser usado.

A missão seguinte dos “encanadores” foi ainda mais retumbante, e um novo fracasso, que acabou com o grupo e com o governo: eles forçaram a entrada de um moderno prédio de escritórios em Washington, às margens do rio Potomac. Os “encanadores” invadiram, na madrugada de 17 de junho de 1972, o Comitê Nacional dos Democratas no prédio de Watergate. Dois anos depois, Richard Nixon acabou saindo à luz do dia da Casa Branca, em 9 de agosto de 1974, pelo inédito ato de renúncia que evitava o impeachment que crescia no horizonte. O chefe supremo dos “encanadores” não conseguiu estancar o vazamento de sua autoridade.

O desinformado Sergio Moro acha que, em Watergate, os jornalistas “divulgavam desde o início, não levavam um ano publicando”. Errado outra vez, professor. O Post não levou um ano publicando – levou mais de dois. Começou com a denúncia da invasão de Watergate, em junho de 1972, e terminou com a renúncia de Nixon, em agosto de 1974. Nessa épica cruzada jornalística, para desespero dos antagonistas cínicos que preferiam as mentiras de Nixon do que a verdade do bom jornalismo, os repórteres do Post tiveram a orientação, a informação privilegiada e as confirmações decisivas do Deep Throat, o “Garganta Profunda”, informante que botava Woodward e Bernstein sempre no caminho certo. Para horror dos antagônicos, soube-se depois, o delator era o número 2 do FBI: seu vice-diretor, W. Mark Felt, que as milícias bolsonarianas devem considerar apenas um traidor da pátria e, portanto, tão criminoso quanto Glenn Greenwald.

Pouco tempo antes, o Times pesou as alternativas legais – consciente de que estava publicando um documento secreto e roubado do Pentágono – e brigou com a força da lei, sem sucumbir a ela, nem se intimidar diante dela. Tanto que levou o caso às últimas instâncias da Suprema Corte, de onde o jornal saiu adornado por uma vitória que reafirmou o primado da imprensa livre sob o império de um presidente politicamente belicoso e moralmente desonesto como Richard “Dick” Nixon, conhecido desde 1950 na campanha para senador na Califórnia como “Tricky Dick” (ou Dick Vigarista).

Um antagonista de raiz, como se sabe, não tem esse tipo de dúvidas: entre Sheehan, Woodward, Bernstein e Greenwald, os fanáticos e idólatras bolsonaristas que infestam as redes sempre estarão ao lado de Tricky Dick.

A manchete que quebrou a segurança nacional: 47 volumes, 7 mil páginas de verdades secretas.

O orçamento negro dos arapongas - Quase meio século após o vazamento dos papéis do Pentágono pelo Times, que abalou os Estados Unidos, o vazamento do Guardian sobre a comunidade de inteligência impactou o mundo, até pelo alcance muito maior da vigilância indiscriminada sobre um mundo conectado pelas grandes redes da internet. Contudo, o que mais irritou os burocratas do setor de espionagem foi o inédito detalhamento de algo nunca antes revelado: o black budget, o chamado “orçamento negro” do indevassável universo da criptografia. O vice-diretor da CIA, Michael Morell, expressou sua indignação em uma entrevista à rede CBS News: “Acredito que se trata do vazamento mais sério, da revelação de informação secreta mais grave na história da espionagem americana. O pior de tudo foi o vazamento do black budget, pois permitirá aos adversários dos Estados Unidos concentrar seus esforços de contraespionagem em setores onde tivemos mais sucesso, em detrimento de outros onde não temos êxito”. Só um antagonista do bom jornalismo, evidentemente, ficaria condoído e solidário ao cínico lamento do vice-chefe da CIA.

Com base nos arquivos vazados por Snowden, o The Washington Post – que compartilhou o Pulitzer com o The Guardian de Greenwald – revelou os dados de um supersecreto sumário de 178 páginas do orçamento do Programa de Inteligência Nacional para o ano fiscal de 2013. Sob a liderança da NSA, sabe-se agora, a hidra da espionagem americana abriga dezesseis agências de inteligência que empregavam então 107.035 pessoas com um orçamento global de US$ 52,6 bilhões – este é o tamanho do black budget.

Antes que algum antagonista se solidarize com os arapongas da surrupiada NSA, cabe prestar atenção ao que disse o deputado Lee H. Hamilton, um democrata de Indiana que presidiu o Comitê de Inteligência da Câmara e comandou a comissão que investigou os ataques do 11 de setembro. Ele lembrou que o acesso a detalhes nunca vistos do black budget permitiriam um debate público mais informado, pela primeira vez, sobre os gastos de inteligência. “Grande parte do trabalho que a comunidade de inteligência faz tem um impacto profundo na vida dos americanos comuns, e eles não devem ser excluídos do processo”, disse Hamilton ao Post, sem qualquer contestação ao fato de o material vazado ser ou não produto de um furto cibernético. Como diria Sergio Moro, o importante aqui é o conteúdo, não a captação. Esse é o ponto.


Pelo documento supersecreto, a CIA é a maior e mais cara agência de espionagem: em 2013, gastava US$ 14,7 bilhões para 21.459 mil funcionários. A NSA é a segunda maior, com gastos de US$ 10,8 bilhões para 14.950 funcionários, 64% deles militares. Além disso, graças ao vazamento de Snowden, foi confirmado que Bluffdale, uma pacata cidade de 13 mil habitantes em Utah, 30 km ao sul de Salt Lake City, já não era apenas a folclórica sede da Apostolic United Brethren, uma seita fundamentalista mórmon que prega a poligamia.

Passou a ser mais notória, desde agosto de 2014, como a base da mais poderosa central cibernética da espionagem mundial: o Utah Data Center, complexo em área desértica onde a temperatura usual chega a 40 graus, é o poço onde a NSA gastou US$ 2 bilhões só na construção de 100 mil m², além de outro tanto para hardware e software da maior rede de computadores já vista. São tantas máquinas que o centro vai gastar ali 65 megawatts de energia, o suficiente para abastecer todas as casas de uma cidade de 250 mil habitantes. As 60 mil toneladas de equipamento de refrigeração em lugar tão quente vão consumir 6,5 milhões de litros de água por dia. Só o sistema de segurança em torno da base custou US$ 10 milhões, incluindo câmeras de circuito fechado, sistema de identificação biométrica e uma cerca externa desenhada para aguentar o choque de um veículo de 5,6 toneladas a uma velocidade de 80 km/h.


O cinismo na placa da central de espionagem da NSA, em Utah: “Nada a esconder? Nada a temer”.

Tudo isso fica insinuado na elusiva placa de saudação, no marco de boas-vindas que a NSA fincou na entrada principal do prédio: Welcome to the UTAH DATA CENTER. Na frase de baixo da placa, a declaração de princípios que resume todo o cinismo de autojustificação usado pelas agências de vigilância e órgãos de repressão de todos os sistemas autoritários, de todos os tempos: If you have nothing to hide, you have nothing to fear [Se você não tem nada a esconder, você não tem nada a temer].

A importância desse massivo vazamento dos dados da NSA por Snowden, vazados para Greenwald e publicados pelo The Guardian, é que, mesmo sem nada a esconder, ficou claro que todos devemos temer o fato de que o centro de Utah foi pensado para rastrear e arquivar todo o tráfego de comunicação existente no planeta.

Segundo um relatório de 2007 do Departamento de Defesa, o Pentágono está montando uma rede mundial, conhecida como Global Information Grid, que vai lidar com uma medida de dados ainda desconhecida pelo homem: o Yottabite (YB), que corresponde a um setilhão de bytes, abarcando toda a informação disponível no planeta. É um valor tão imenso que a mente humana ainda não pensou na palavra para uma magnitude maior. Nesse admirável, assustador mundo novo, o Data Center da pequena Bluffdale estará bisbilhotando literalmente toda a humanidade. Em futuro não muito distante, o Yottabyte da NSA em Utah estará processando informações equivalentes a 500 quintilhões – 500.000.000.000.000.000.000! – de páginas de texto.

O saudável vazamento de dados secretos da NSA foi obra de um sofisticado hacker do bem, Edward Snowden, que teve a boa ideia de repassá-los a um repórter corajoso e ético, Glenn Greenwald, consciente de sua responsabilidade maior perante os cidadãos e a história – um e outro indiferentes aos (maus) humores do poder e dos poderosos.

Para sorte de todos nós, esse material importante não foi entregue a um inimigo do bom jornalismo. Os antagonistas mais excêntricos da boa reportagem, assim, vão continuar confinados à sua ridícula piadinha sem graça: “Verdevaldo”.

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Luiz Cláudio Cunha, jornalista, é autor de Operação Condor: O sequestro dos uruguaios – uma reportagem dos tempos da ditadura (L&PM, 2008). E-mail: cunha.luizclaudio@gmail.com
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Operação Condor - a aliança secreta criada pelas ditaduras da Argentina, do Chile, do Brasil, do Uruguai e do Paraguai para caçar opositores políticos além das fronteiras. Cogitou-se que fosse somente uma cooperação eventual entre o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e a Companhia de Contrainformações do exército uruguaio. Não era.

Em nov/1978 os uruguaios Lílian e Universindo foram sequestrados, interrogados e torturados na Capital gaúcha pela polícia brasileira e uruguaia, sofrendo a primeira etapa do ritual Condor. Enfrentaram a segunda fase, o traslado até os calabouços do Uruguai. Escaparam da provável solução final - a morte e o desaparecimento nas águas do Oceano Atlântico ou do Rio da Prata - graças ao repórter Luiz Cláudio Cunha e ao fotógrafo J. B. Scalco, que descobriram e denunciaram o crime nas páginas da revista Veja.

Leia: Como um ex-jogador fez a Operação Condor ser flagrada em pleno voo (12/nov/2018)

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