05 de novembro, 2017
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Redículo, por Luiz Fernando Veríssimo

O STF teve suas recaídas no ‘redículo’. O Gilmar Mendes é ‘redículo’. O Congresso Nacional foi repetidamente ‘redículo’. O Temer é cada vez mais ‘redículo’. 

O GLOBO * 05/11/2017 - 8:14 - reproduzido também no Brasil 247 em 05/nov/2017 as 9:04

Estávamos passeando em Belém do Pará. Tinham nos recomendado uma visita ao Museu Goeldi, mas o museu estava fechado. Ficamos caminhando pelo parque zoológico que tem em volta do museu. Vimos uma menininha com seus 3 ou 4 anos que olhava, fascinada, uma jaula cheia de pássaros. A menininha saiu correndo, entusiasmada, e gritou para a mãe, que se afastava:

— Mãe! Olha! Redículo!

Ficamos sem saber o que a menininha tinha achado ridículo na jaula, ou se — o mais provável — ela tinha recorrido a um termo que só conhecia de ouvir os adultos falarem para descrever o que sentiam. “Redículo” podia significar “maravilhoso”. Ou tão maravilhoso que nenhuma palavra sua conhecida faria justiça, só mesmo uma palavra especial, uma palavra de adulto, qualquer palavra de adulto.

Ou então a menininha encontrara uma perfeita descrição para o mistério que vira na jaula, a extrema estranheza da natureza, que nenhum vocabulário alcança. A vida na sua forma mais, assim, explícita, com penas coloridas e bicos extravagantes, a vida além das palavras certas. Redícula no sentido de...de... De redícula mesmo.

Ou então... Fiquei pensando em como “redículo” poderia ser adotado para descrever o que transcende o ridículo. “Redículo” seria o ridículo extrapolado, o ridículo além do ridículo. Como a história improvável do Brasil nos últimos anos, e no que esta história vai dar se as projeções eleitorais para 2018 estiverem certas, e a decisão final seja entre Lula e Bolsonaro ou entre Bolsonaro e qualquer outro.

O golpe contra Dilma que não ousou dizer seu nome foi “redículo”. O Supremo Federal teve suas recaídas no “redículo”. O Gilmar Mendes é “redículo”. O Congresso Nacional foi repetidamente “redículo”. O Temer é cada vez mais “redículo”.

Diante de uma eleição como promete ser a próxima, não encontraremos a palavra certa ou reduziremos tudo a um “redículo” no pior sentido. Ou então, como a menininha de Belém diante do aviário, nos maravilharemos com o espetáculo. Se houver eleição, apesar de tudo, será sinal de que nossa frágil democracia resistiu ao “redículo” terminal.
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VERÍSSIMO ATACA HIPOCRISIA DA MÍDIA E DO JUDICIÁRIO - Brasil 247 de 20/set/2015 ÀS 13:34 

"Uma particularidade do Brasil que certamente intrigará os historiadores futuros será a aparente existência no país — inédita em todo o mundo — de dois sistemas de pesos e medidas. O cidadão poderia escolher um sistema como se escolhe uma água mineral, com gás ou sem gás. No caso, pesos e medidas que valiam para todo mundo, até o PSDB, ou pesos e medidas que só valiam para o PT", diz o escritor e cronista Luis Fernando Verissimo; "Outra dificuldade para brasilianistas que virão será como diferenciar os escândalos de corrupção, que eram tantos. Por que haveria escândalos que davam manchetes e escândalos que só saíam nas páginas internas dos jornais, quando saíam? Escândalos que acabavam em cadeia ou escândalos que acabavam na gaveta de um procurador camarada?"

247 – A crônica Conspiração, publicada neste domingo pelo escritor Luis Fernando Veríssimo, detona a hipocrisia da mídia e do Poder Judiciário no Brasil. Segundo ele, existem dois pesos e duas medidas no Brasil para avaliar escândalos de corrupção, assim como se vende água com e sem gás.

"Uma particularidade do Brasil que certamente intrigará os historiadores futuros será a aparente existência no país — inédita em todo o mundo — de dois sistemas de pesos e medidas. O cidadão poderia escolher um sistema como se escolhe uma água mineral, com gás ou sem gás. No caso, pesos e medidas que valiam para todo mundo, até o PSDB, ou pesos e medidas que só valiam para o PT"", disse ele.

"Outra dificuldade para brasilianistas que virão será como diferenciar os escândalos de corrupção, que eram tantos. Por que haveria escândalos que davam manchetes e escândalos que só saíam nas páginas internas dos jornais, quando saíam? Escândalos que acabavam em cadeia ou escândalos que acabavam na gaveta de um procurador camarada?", complementou.

"Mas o maior mistério de todos para quem nos estudar de longe será o ódio. Nossa reputação de povo amável talvez sobreviva até 2050. Então, como explicar o ódio destes dias?"


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