29 de outubro, 2015

Quando a tristeza derrota a vontade de viver... (1)

Por determinação da Lei Federal (nº 101/2000) conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal, a cada quatro meses, todas as Secretarias Muncipais da Saúde, tem que realizar uma audiência pública, onde é apresentado um relatório completo das atividades. É a oportunidade de se informar, esclarecer, questionar e tirar dúvidas sobre a Saúde Pública - oficialmente.

Na Audiência Pública de Avaré/SP, do 2º Quadrimestre de 2015 (maio a agôsto/2015) realizada em 25/09/2015 na Câmara Municipal, quando abriu o tempo para as perguntas, a Enfermeira Coordenadora do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) foi indagada sobre a questão dos índices de suicídios em Avaré. Ela citou alguns dados e fez menção a imprensa, da maneira que se publica os casos de suicídios. Naquele momento o único órgão de imprensa presente era este BLOG. Mas depois, a partir de informação sobre a audiência, surgiram matérias sobre o assunto.

Eu citar "que a imprensa fez matéria sobre o assunto", fica generalizado. Não é minha intenção questionar, avaliar ou criticar nenhum outro órgão de imprensa. Mas não citar fonte, "generalizo" como se todos tivessem se manifestado. Por isso, cito dois casos que chegaram a mim sobre o assunto. E na semana anterior ao episódio, quase todos haviam publicado sobre dois suicídos ocorridos há poucos dias na cidade. 

- Jornal do Ogunhê: "Para Diretora do CAPS, imprensa aumenta o número de suicídios"

- Jornal a COMARCA: edição de 02 a 08/10/2015 na pag. 2 - Coluna IN OFF reproduzo trecho da nota: "(...) A diretora do CAPS faz isso. Poio faz isso. Suicídio? Culpa da imprensa. Saúde ruim? É a imprensa a culpada. Que imprensa má, não é mesmo?"

O tema SUICÍDIO sempre foi delicado para mim, na minha família, justamente por ter perdido parente e amigos. Mesmo nos tempos da faculdade de jornalismo, era tratado de maneira cautelosa pela própria mídia. A saúde mental pode ser perigosa e fatal; pior que a falta de saúde física.

No pronunciamento da Enfermeira do CAPS, não vi intenção de "censurar" ou muito menos "mascarar" qualquer problema e sim, ela tocou num assunto que realmente é um problema sério: suicídio na mídia, como trabalhar esta informação?

Conversei com profissionais sobre o episódio e outras situações, mas por atuarem na área da psicologia, achamos por bem nenhum tipo de entrevista, mas questões importantes e fatos relacionados foram lembrados. 

No site HOMO LITERATUS tem um texto "A MALDIÇÃO GOETHIANA: A MAIOR ONDA DE SUICÍDIOS EM MASSA DA HISTÓRIA DA LITERATURA" - reproduzo abaixo parte do texto, mas para ler na íntegra, acesse:

Cita que existe o chamado "Efeito Werther: Designa-se ao indivíduo que já possui algum tipo de desequilíbrio emocional (depressão) somado a uma pré-disposição suicida, e que, de alguma forma, é motivado ou atraído por terceiros a consumar o ato em si. Isto é baseado num romance de 1774 do poeta e escritor alemão Johann Wolfgang Goethe que marcou época em seu país e influenciaria uma legião de escritores no mundo todo com sua obra: "Os sofrimentos do jovem Werther". 

(...) O tom realístico e perturbador do romance provocou uma verdadeira comoção entre os jovens da época, que atraídos pelo espírito passional e depressivo de seu respectivo protagonista, resolveram seguir o mesmo rumo pondo fim em suas próprias vidas...

(...) Foi grande o número de suicídios relacionado à leitura do pequeno-grande romance de Goethe, tornando-se rapidamente uma obra maldita para a igreja...

Em outras matérias, traz estudos que já haviam feito essa conexão: depois da morte de Marilyn Monroe, por exemplo, houve um aumento de 12% no número de suicídios nos Estados Unidos, segundo o USA Today em 1962 cerca de 197 mortes.

Num seriado da TV "LIE TO ME" (Engana-me se Puder) as investigações são feitas por uma equipe de especialistas em detectar mentiras através das expressões e gestos (nossos policiais também acabam enxergando nos gestos os possíveis suspeitos). Seria como se eles fossem verdadeiros polígrafos humanos. Na 1ª temporada, episódio 8 "Depraved Heart" investiga uns casos de suicídios que seguem uma lógica totalmente adversa. Acesse o link sobre a série: "LIE TO ME" - Entretanto, para assistir o filme: 1ª temporada, episódio 8 não está mais disponível no Youtube - consta bloqueio da Interpool e Policia Federal, talvez por questões de direito autoral e ou pirataria (atualizado em 20/set/2017). 

Em seguida, publico outros textos sobre o tema, que espero que possam contribuir ao debate. Não utilizei o termo SUICÍDIO no título desta e de nenhuma outra matéria de maneira proposital, não quero dar destaque a isso. 

A depressão, o tratamento, as angústias, as perdas... e ainda mais nesta época, em que se chega ao final de ano, parece que as cobranças se afloram na pele, as frustrações, a sensibilidade aguça, a tristeza se torna maior...

Só não podemos deixar a tristeza derrotar a nossa vontade de viver!

Gonzaguinha - O que é, o que é (Viver e não ter a vergonha de ser feliz - 1982) 


Leia também:

Quando a tristeza derrota a vontade de viver... (2) - OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, por Carolina Pompeo Grando. O suicídio na pauta jornalística. Existe uma convenção profissional extra-oficial, uma espécie de acordo entre cavalheiros, que determina: suicídios não serão noticiados pela grande imprensa. 

Quando a tristeza derrota a vontade de viver... (3) - Suicídio: Informar para salvar vidas, por Eliana Haddad. MUNDO SUSTENTÁVEL: O jornalista André Trigueiro lança pela editora Correio Fraterno o livro "Viver é a melhor opção" – Prevenção do suicídio no Brasil e no mundo...
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Leonardo Boff comentando o livro de André Trigueiro "Viver é a melhor opção"
 - 27/05/2015: O jornalista André Trigueiro é possuído por duas paixões: a causa ambiental e a prevenção do suicídio. No fundo é movido por um único grande amor: o amor apaixonado pela vida, seja da natureza ou seja do ser humano sob risco. O amor pela natureza se materializa por seu programa, talvez o melhor do gênero sobre o ambiente da televisão nacional, transmitido pela Globonews com o título Cidades e Soluções. O amor pelo ser humano sob risco de suicídio se mostra por sua atuação no Centro de Valorização da Vida (CVV) do Rio de Janeiro e por este esplêndido livro cujo título diz tudo: “Viver é a melhor Opção: a prevenção do suicídio no Brasil e no mundo”(Editora Espírita, São Bernardo do Campo 2015)..."
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Auto-censura - Suicídio: um assunto quase proibido na imprensa - OPINIÃO & NOTÍCIA 11/set/2013: Um ato em comum nas vidas de Van Gogh, Antero de Quental, Santos Dumont, Getulio Vargas e Kurt Cobain... 
- A maioria dos suicídios não vira notícia. Com importante papel na sociedade, a mídia influencia um país inteiro tanto nos aspectos sociais, políticos ou econômicos. O jornalista não lida bem, no entanto, com a forma mais trágica da morte. Um acordo de cavaleiros – quase não verbal na imprensa – sugere que noticiar o autoextermínio somente estimularia e influenciaria a ocorrência de outros casos – o chamado efeito “Werther”, nome dado a um personagem de Goethe que se mata por amor e acaba influenciando outros a cometer o mesmo ato...
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Divulgacao de suicidios pode aumentar o número de casos - Bombeiro Civil do RN 30/jan/2015: 
O suicídio não é só um tabu como também é um problema de saúde pública em escala mundial. Estima-se a nível global 1 morte por suicídio a cada 1 minuto e 9 segundos, ou seja, 1 milhão de pessoas por ano. No Brasil, temos 25 morte por dia, 9 mil por ano, sendo o número de tentativas o dobro desse valor...

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A MALDIÇÃO GOETHIANA: A MAIOR ONDA DE SUICÍDIOS EM MASSA DA HISTÓRIA DA LITERATURA - LITERATUS 08/fev/2014: Numa época em que os grandes meios de comunicação de massa, a exemplo do rádio, do cinema, da TV e da internet, eram embriões inexistentes de um futuro demasiado e caoticamente tecnológico, a literatura tratava-se uma das vertentes mais aclamadas do campo das artes (juntamente com a imprensa), responsável por causar um verdadeiro impacto na vida cultural, política e ideológica da história da humanidade. Por isso a grande importância das escolas literárias, que desencadearam rupturas não apenas estéticas, porém, sobretudo, no modo de pensar e agir da sociedade, corroborando na emancipação e quebra de paradigmas impostas pela ordem mundial...

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Prevenir um suicídio não é fácil, mas alguns sinais merecem alerta, por Dr. Jairo Bouer 12/ago/2014: Mortes por suicídio sempre deixam as pessoas estarrecidas. E quando se trata de famosos, existe sempre o risco de a notícia servir como incentivo para pessoas que já pensam em acabar com a própria vida, como lembrou um artigo do Huffington Post desta terça-feira (12).
Um estudo publicado em maio deste ano, na revista Lancet Psychiatry, comprovou que, quando a imprensa dá destaque para casos de suicídio, há um aumento no número de pessoas que se matam nos meses seguintes, especialmente jovens...

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COPYCAT SUICIDE ... UM FENÔMENO APÓS SUICÍDIOS CÉLEBRES E A HISTÓRIA DA CANÇÃO SUICIDA - PUBLICADO EM MUSICA POR MARINA BAITELLO ago/2014: O suicídio em cluster ou em série (Copycat Suicide) é um fenômeno que normalmente ocorre após suicídios célebres, como o de Marilyn Monroe, e o que tende a ocorrer com o recente suicídio de Robin Williams. Isto também ocorre com obras literárias e poemas como é o caso da misteriosa "Canção da Morte"... Poucos versos e vidas se esvaindo em cluster...

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MONITOR DA IMPRENSA, ROBIN WILLIAMS (1951-2014). Morte de ator provoca debate sobre a cobertura de suicídio - Observatório da Imprensa 19/ago/2014: Após as gafes iniciais da cobertura da morte do ator Robin Williams, a mídia parece ter conseguido encontrar um equilíbrio para exercer seu papel de serviço público. Se nos primeiros momentos após a tragédia, quando os canais de TV americanos tinham tempo demais para acomodar informações ainda reduzidas, os âncoras pareciam se enrolar com as palavras, ao longo da semana os veículos de comunicação foram encontrando o tom...

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Comentarios

  1. Vânia Bagagli

    Muito bom....adorei o texto e as citaçoes....trabalho na área da saúde e infelizmente convivo diariamente com doenças psiquiatricas,preconceitos e ignorâncias sobre elas...já tive vizinha,colega de trabalho e parentes de pacientes que se suicidaram...tema sempre muito dificil de ser abordado...

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