01 de dezembro, 2017
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KEN LOACH, cineasta: “O Estado cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua”

Aos 80 anos, cineasta inglês estreia ‘Eu, Daniel Blake’, o filme que lhe rendeu a segunda Palma de Ouro. 

O filme é a história de um homem bom abandonado por um sistema mau. Um trabalhador honrado sofre um ataque do coração que o condena ao repouso. Sem renda, solicita apoio do Estado e se vê enroscado em uma cruel espiral burocrática. Esperas absurdas ao telefone, entrevistas humilhantes, formulários estúpidos, funcionários desprovidos de empatia por causa do sistema. Kafka nos anos de austeridade. Nessa espiral desumanizadora Daniel encontra Katie, mãe solteira de dois filhos, obrigada a se mudar para Newcastle porque o sistema diz que não há lugar para alojá-los em Londres, uma cidade com 10.000 moradias vazias. Daniel se torna um pai para Katie e um avô para as crianças. A humanidade que demonstram realça a indignidade do monstro que os condena. Aí está, como terão reconhecido seus fiéis, o toque de Ken Loach.

EL PAÍS BRASIL, CULTURA - por PABLO GUIMÓN - Londres 05/JAN/2017 12:44

Seu cinema sempre esteve do lado dos menos favorecidos e, aos 80 anos, a realidade continua lhe dando argumentos para permanecer atrás das câmeras. Eu, Daniel Blake, Palma de Ouro no último festival de Cannes (a segunda de Loach), é um filme espartano. Não precisa de piruetas para comover. A história foi escrita pelo amigo e roteirista Paul Laverty, depois de percorrer bancos de alimentos, centros de emprego e outros cenários trágicos do Reino Unido de hoje, onde conheceu muitos daniels e katies. A realidade de Loach (Nuneaton, 1936) está lá fora para quem quiser vê-la. Mas, em um mundo imune aos dados, a emoção que o cineasta mobiliza para contar essa realidade se revela mais valiosa que nunca. Recebe o EL PAÍS em seu escritório no Soho londrino.

EL PAÍS: Como chegamos à situação que seu filme descreve?
Ken Loach: É um processo inevitável, é a forma como o capitalismo se desenvolveu. As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista. Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima. E o Estado contribui para a humilhação com toda essa burocracia estúpida.

EL PAÍS: Abandonar os mais desfavorecidos é uma escolha política?
Ken Loach:
É uma escolha política nascida das demandas do capital. Se os pobres não aceitassem que a pobreza é sua culpa, poderia haver um movimento para desafiar o sistema econômico. Os meios de comunicação falam de gente folgada, de viciados, de pessoas que têm muitos filhos, que compram televisores grandes… Sempre encontram histórias para culpar os pobres ou os migrantes. É uma forma de demonizar a pobreza. Neste inverno, muitas famílias terão de escolher entre comer e se esquentar. Existe uma determinação da direita para não falar dessas coisas e é assustador tolerarmos isso.


“O cinema norte-americano cultua a riqueza. Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Há uma agenda de direita nesse cinema”, Ken Loach - reprodução do EL PAÍS: O diretor Ken Loach em Londres. DAVE J HOGAN DAVE J HOGAN/GETTY IMAGES

EL PAÍS: A situação lembra Cathy Come Home, seu filme de 1966 sobre uma família jovem que está na rua. O que mudou em 50 anos?
Ken Loach: 
Agora é pior. Naquela época, os elementos do Estado de bem-estar ainda funcionavam, agora não. A sociedade, hoje, não está tão coesa. Acontece em toda a Europa. O sistema se tornou pior porque o processo capitalista avança.

EL PAÍS: As histórias humanas são seu veículo para articular mensagens políticas?
Ken Loach: 
Todas as histórias humanas são políticas. Têm consequências políticas. Nem Katie nem Dan são animais políticos. Não fazem discursos, não participam de reuniões. Mas a situação em que se encontram é determinada pela política. É preciso haver indivíduos. Não vale alguém que represente algo. Devem ser idiossincrásicos. Devem ser pessoas com coisas particulares que as tornem especiais.

EL PAÍS: Todo o cinema é político?
Ken Loach: O cinema norte-americano cultua a riqueza. Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Todos parecem muito saudáveis, têm corpos perfeitos. O subtexto é que a riqueza é boa, que o privilégio é bom. Além de outras mensagens, como que o homem com um revólver resolverá todos os seus problemas. Há uma agenda de direita no cinema norte-americano. Com exceção de Chaplin, claro. Seus filmes contêm uma certa política radical, a do homem pequeno que vence.

EL PAÍS: Você apoia Jeremy Corbyn, o polêmico líder trabalhista. Acredita que seu projeto de esquerda poderia mudar a realidade descrita em seu filme?
Ken Loach: Sim, sou otimista. Sanders, Podemos, Syriza... Existe uma sensação de que outro mundo é possível. A ascensão de Corbyn traz muita esperança, mas é sistematicamente atacada por toda a imprensa, pela BBC, e até pelos jornais de esquerda. É uma grande batalha, mas é muito popular entre as bases.

EL PAÍS: Acontece com frequência, como seu país demonstrou, que as mensagens populistas e xenófobas atraiam os mais desfavorecidos.
Ken Loach: Oferecem uma resposta simples: os imigrantes roubaram seu trabalho. É igual ao crescimento do fascismo nos anos 1930. É fácil apontar o diferente. As pessoas são sempre vulneráveis às respostas simples. A esquerda tem uma resposta mais complicada.

EL PAÍS: O que pensa quando ouve Theresa May dizer que os conservadores são o partido da classe trabalhadora?
Ken Loach: Seria uma piada, não fosse o fato de que ninguém a questiona. É um Governo que utiliza a fome como arma, que deixa as pessoas passarem fome para discipliná-las. É propaganda.



EL PAÍS: Insinuou que Jimmy’s Hall (2014) seria seu último filme, mas voltou e ganhou a Palma de Ouro. Desta vez é para valer?
Ken Loach: Não sei. Como no futebol, jogaremos uma partida de cada vez. Há muitas histórias para contar, mas, fisicamente, o cinema é muito exigente.

EL PAÍS: Como gostaria de ser lembrado?
Ken Loach: Como alguém que não se rendeu, acho. Não se render é importante, porque a luta continua. E as pessoas tendem a se render quando ficam velhas.
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CARTA CAPITAL - CULTURA Crônica: “Eu, Daniel Blake”: o grito de Ken Loach não previu o Brexit - por Matheus Pichonelli, Jornalista e cientista social, escreve sobre cultura e comportamento no site de CartaCapital — publicado 09/01/2017 17h03

Cineasta acerta na crítica à desumanização das relações, mas ela parece insuficiente para entender o triunfo das saídas populistas para a crise.

É compreensível que “Eu, Daniel Blake”, filme de Ken Loach em cartaz no Brasil desde a semana passada, tenha rendido aplausos, além de uma Palma de Ouro, em Cannes, e saudações como “joia humanista” por parte da crítica.

O filme tem como proposta denunciar a precarização da classe trabalhadora britânica diante de um Estado burocratizado, mecanizado, insensível – e, no limite, assassino.

Para isso, acompanha a rotina de Daniel Blake, um carpinteiro de Newcastle que sofre um infarto, fica impedido de voltar ao trabalho e entra numa espiral surreal para obter seu auxilio-desemprego junto ao governo, além de enfrentar o estigma de quem associa o benefício, um direito, a uma certa indisposição ao trabalho.

Não precisamos mover um músculo para tomar um partido entre aquele Estado insensível, cheio de burocratas incompetentes, e portanto autoritário, e o do trabalhador injustiçado.

Jamais morei na Europa e, por mais que acompanhe as notícias e converse com amigos que estão ou estiveram no Velho Continente recentemente, não poderia avaliar a proximidade do retrato pintado por Loach da realidade local.

Mas imagino, e só imagino, que um eleitor pró-Brexit, a saída do Reino Unido aprovada pelos ingleses em referendo em junho, exatamente um mês após a cerimônia em Cannes, repetiria tranquilamente algumas das premissas, ainda que justas, levantadas pelo filme.

Daniel Blake é o cidadão impotente diante de um Estado que falha em garantir sua dignidade quando ele mais precisa. Mais que isso, assiste inconformado à forma como os governos tratam, em suas baias, cartilhas decoradas e atendentes eletrônicos, cidadãos honestos como ele.

Blake não é só um sujeito das antigas, que viu o mundo mudar à sua volta e não conseguiu se adaptar (numa das cenas, ele vê pela primeira vez um mouse e tenta deslizar o equipamento sobre a tela do computador); é alguém ainda capaz de produzir e cultivar vínculos, de se sensibilizar e oferecer ajuda diante de injustiças, de lembrar aos mortos-vivos engolidos por um sistema desmoralizado e desmoralizante que ainda está vivo.

Tudo isso fica claro quando ele abre as portas da solidariedade a uma mãe abandonada por dois ex-maridos obrigada a buscar abrigo no interior com dois filhos porque o governo não ofereceu a ela nenhuma outra opção de moradia em Londres. Ela é o exemplo de um grupo social que, desamparado, não tem emprego nem tempo para se dedicar aos estudos para procurar empregos melhores.

O encontro entre a mãe solteira e o viúvo abandonado pelo governo é quase uma tentativa de restabelecimento de uma ordem familiar também sob risco, como se as peças faltantes em cada parte pudessem juntar forças e se reunir sob uma autoridade paterna até então ausente – uma autoridade que cuida, vigia, ensina, tudo o que, em tese, o governo peca em fazer.

Em entrevista ao El Pais, o cineasta afirmou: “As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista”. 

Até aqui, a crítica a este mundo desumanizado é justa, embora previsível – já na primeira cena podemos desconfiar que em algum momento esta mãe em desespero será tentada a aceitar algum atalho para sair da situação. Isso acontece a partir do convite de um homem de nome (ou cidadania, não me ficou claro) russa.

As cenas em que a mulher, cansada e faminta, tenta segurar o choro, e a forma como nos afeiçoamos a Daniel Blake, o sujeito fechado e durão que mais à frente descobriremos ter um grande coração, são uma tentativa de aproximação entre público e personagens, mas que a certa altura parece forçar a mão para nos criar empatia.

Mas a exposição ao sofrimento dos personagens não me parece o problema principal do filme. O problema principal é o recado de fundo. É como se Daniel Blake, o homem correto que luta para preservar a humanidade num período de mudanças, representasse uma integridade em perigo naquele país globalizado e conectado onde o vizinho, jovem e negro, usa seu endereço para receber e revender produtos chineses (à custa da indústria nacional, diria um cabo eleitoral conservador que se apropriaria, como se apropriou, daquela revolta para outros fins) e ninguém mais se importa em levar o cachorro para defecar no nosso quintal.

Blake, é verdade, chega a demonstrar simpatia pelo vizinho que deu um jeito de driblar o mercado local (há entre eles, aliás, uma amizade sincera), mas o pano de fundo está criado: o risco a essa “integridade” diante de governos supostamente maleáveis com os estrangeiros e suas portas de entrada mas que não reconhecem os direitos de seus cidadãos – trabalhadores, honestos e solícitos – foi determinante para que eleitores britânicos fossem seduzidos por discursos nacionalistas, anti-gobalização e, no limite, anti-imigração.

No filme, Loach parece se antecipar a um colapso prestes a ocorrer em seu quintal e se espalhar pelo mundo com uma crítica social correta, mas aparentemente insuficiente, como o foram as tentativas de compreender como a revolta contra cortes de direito, injustiças e governos despreparados resultaram em fenômenos como o Brexit, na Inglaterra, e Donald Trump, nos EUA, para não citar o impeachment em terras brasileiras.

Em sua obra, Loach se notabilizou por dar voz e protagonismo aos sujeitos injustiçados, os pequenos cidadãos que sofrem, absorvem, reagem e influenciam os grandes eventos da história. Estranha que, ao comentar o próprio filme, tenha dito que “se os pobres não aceitassem que a pobreza é sua culpa, poderia haver um movimento para desafiar o sistema econômico”. O movimento havia, mas ele acertou em outra ponta. O que não havia, talvez, era essa passividade projetada pelo diretor.

Em outras palavras, e lembrando que o filme é anterior ao referendo, em que momento trabalhadores similares a Daniel Blake foram seduzidos, na sequência, por respostas a esse colapso baseadas em propostas extemporâneas como o nacionalismo, o ódio ao estrangeiro, o fechamento de entradas e saídas em um mundo de fluxos, velocidades, conexões, compartilhamentos e diversidade. As explicações para isso, imagino, já não cabem no velho conflito entre trabalhadores e patrões, governos e cidadãos, burocratas insensíveis e humanidade surrada.

Não se pode dizer que esses conflitos que o filme tenta apontar em um modelo esquemático, quase maniqueísta, foram superados, mas sim emaranhados num mundo de fronteiras confusas e identidades (o título do filme, afinal, é a afirmação do eu, sujeito) e integridade em xeque. Daí a necessidade de buscar respostas onde as narrativas tradicionais, das quais o filme acaba fazendo parte, já não alcança.


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CRÍTICAS ADOROCINEMA - 4,0 Muito bom - Eu, Daniel Blake - Respeito por Francisco Russo


No Festival de Cannes de 2014, na coletiva concedida por Jimmy's Hall, Ken Loach surpreendeu ao dizer que considerava a aposentadoria. "Primeiro irei acompanhar a Copa do Mundo, depois veremos o que o outono trará." Dois anos depois, o veterano diretor está de volta ao festival com um longa-metragem extremamente fiel às suas crenças. Felizmente!

Por mais que seus dois últimos filmes, Jimmy's Hall e A Parte dos Anjos, sejam agradáveis e até divertidos, falta a ambos o tom incisivo típico de Loach ao apontar desvios existentes na sociedade atual. Em I, Daniel Blake, o diretor retorna ao habitual tema da defesa das minorias perante os abusos cometidos pelo Estado, agora em relação à burocracia existente para se obter benefícios sociais concedidos pelo governo.

Por mais que trate de leis e regras tipicamente inglesas, é impossível não se identificar de alguma forma com a saga do personagem título, um senhor impedido de trabalhar após passar por um ataque cardíaco. Basta relembrar algum momento em que você, por qualquer motivo que seja, buscou auxílio telefônico e precisou aguardar uma eternidade para ser atendido por um operador burocrático que repete, sempre, a mesma cartilha pré-definida. Esta é a grande batalha enfrentada por Blake, exponenciada pelo fato de ser um analfabeto digital - o que, em uma época onde as informações são jogadas na internet para serem descobertas por cada um, torna-se um complicador ainda maior.

I, Daniel Blake - FotoO grande mérito de Loach neste novo filme é evidenciar o cinismo existente por trás do sistema, de forma a ofertar ajuda mas torná-la tão complicada de ser atingida que, na prática, torna-se inviável. É como se existisse apenas de boca para fora, de forma a evitar acusações de desamparo social, mas sem que haja o interesse em vê-la efetivamente funcionando. Diante de tal situação, nada mais resta a ele do que lutar pelo respeito, como pessoa e como cidadão. E é neste ponto que o filme torna-se comovente.

Em um cenário cada vez mais desolador e sem perspectiva, Loach oferece o lado humano de seus personagens - e é difícil não ficar tocado por eles, independente da sua crença política. A sequência em que o protagonista Dave Johns descobre o caminho tomado pela amiga Katie (Hayley Squires) é de uma beleza triste, pelos sentimentos envolvidos. O mesmo vale para o desfecho, carregado de emoção e idealismo. Loach pode até não conseguir mudar o mundo com seus filmes, mas a mensagem que transmite através deles mais uma vez atinge corações e mentes. Um filme para ver, refletir e até mesmo traçar um paralelo com a realidade política existente no Brasil.

Filme visto no 69º Festival de Cannes, em maio de 2016.
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