17 de julho, 2015

Clara Charf, uma das mulheres mais fascinantes do Brasil, completa 90 anos

BLOG DO MARIO MAGALHÃES: Seus parentes, amigos e companheiros queriam festejar na data do aniversário, mas não teve jeito: moradora do bairro paulistano do Bom Retiro, Clara preferiu continuar em Santo André, onde está desde a quarta-feira, dedicada a atividades da Associação Mulheres pela Paz. Só volta para São Paulo no sábado.
 
Nos últimos tempos, a entidade presidida por ela tem se dedicado a combater a violência doméstica.
 
Como Clara costuma contar, seu empenho tem sido para também reunir homens, na educação contra a violência, e não somente mulheres.
 
“Rapaz, você precisava ver'', sempre me diz, depois de viagens país afora das quais regressa com otimismo inabalável.
 
Com nove décadas de vida, Clara continua como na juventude: na luta, e linda.
 
Ingressou no PCB ainda menor de idade; trabalhou na assessoria parlamentar do partido; tornou-se uma das mais importantes ativistas do movimento de mulheres; defendeu direitos que inexistiam antes de pessoas como ela batalharem por eles (divórcio, 13º salário, educação pública para as crianças e muitos outros); foi presa e ameaçada na década de 1950 (“Olha aqui, sua comunistinha de merda, ou você fala ou eu arrebento você''); golpistas do Dops, em 1961, arrombaram a porta do apartamento em que ela vivia com seu companheiro, Carlos Marighella; na crise dos mísseis, em 1962, Clara cruzou com Che Guevara em Havana; em 1964, por pouco, escapou novamente dos policiais (desceu pelas escadas do prédio, enquanto os tiras subiam pelo elevador); foi um dos primeiros cidadãos processados pela ditadura recém-parida; incorporou-se à ALN, maior organização armada de combate aos generais e seus sócios; sobreviveu à morte de Marighella, em 1969, à caçada dos beleguins e amargou o exílio até 1979; de retorno ao Brasil, prosseguiu na militância feminista, na trincheira da democracia e foi pioneira do PT; conheceu figuras como Nelson Mandela e Michelle Bachelet e passou a ser, ela própria, personalidade de projeção mundial.
 
Um gigante da história.
 
Até hoje não parou e nem pretende parar tão cedo.
 
Sua vida é tão espetacular que a coadjuvante prevista na biografia “Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo'' (Companhia das Letras) virou co-protagonista. Que merece uma biografia só dela. Uma, não: muitas.
 
Uma das passagens mais comoventes, sua grande história de amor, eu reconstituí no livro: a fuga de casa para ficar com o homem da sua vida. Clara passou dez anos sem ver o pai, que no princípio rejeitou o genro, mas o desencontro teve final feliz.
 
Um dia, daqui a décadas, escolas no Brasil terão o nome Clara Charf. Será a homenagem à mulher que abriu mão de muita coisa, por se preocupar primeiro com os outros, sobretudo com quem nada ou pouco tem, em vez de pensar em si mesma.
 
Concorde-se ou não com as ideias dela, pode ter certeza: pensou em dignidade, pensou em Clara Charf.
 
Clara Charf, uma senhora mulher – Foto reprodução TV Cultura - Tim-tim! por Mario Magalhães (charge acima). O blog está no Facebook e no Twitter:
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Leia também:
Brava Gente – Clara Charf, mulher de coragem, por Onides Bonaccorsi Queiroz em 07/06/2013 - 3:53 PM - Carlos Marighella a direita e Clara Charf ao centro da foto.
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Quando da entrega, em 2014, do Prêmio Direitos Humanos, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), Clara Charf recebeu das mãos da presidenta Dilma Rousseff a homenagem na categoria Igualdade de Gênero.
 
Nesta sexta-feira, 17 julho, a guerreira e batalhadora das lutas das mulheres, completa 90 anos. Nas palavras do escritor e jornalista Mario Magalhães, "com nove décadas de vida, Clara continua como na juventude: na luta, e linda".
 
Em seu blog, Magalhães conta a trajetória de Clara e a homenageia: "um dia, daqui a décadas, escolas no Brasil terão o nome Clara Charf. Será a homenagem à mulher que abriu mão de muita coisa, por se preocupar primeiro com os outros, sobretudo com quem nada ou pouco tem, em vez de pensar em si mesma".
 
Em texto-homenagem, Laisy Moriére, secretária Nacional de Mulheres do PT, relembra que "com o assassinato de seu companheiro, de luta e de vida, e a perseguição do regime militar, Clara, que também foi Marta, foi Cláudia, foi Nice,  e que também já havia sido presa, viu-se obrigada a buscar exílio em Cuba, onde viveu por 10 anos até retornar ao Brasil, em 1979, quando veio a anistia.
No retorno, filiou-se ao PT e, a convite das mulheres do Partido, saiu candidata a deputada por São Paulo. O convite à Clara tinha uma forte razão de ser. Clara era a companheira de Marighella, mas tinha iniciado sua militância antes de conhecê-lo. Clara tinha sua própria história. Carregava consigo a profunda inquietação de quem busca a liberdade, a liberdade no sentido mais amplo, mais profundo, aquela que abarca todos os seres, homens e mulheres, aquela que se traduz no direito de todos e todas terem  acesso à casa, à comida, à educação, à saúde, à cultura; que implica em respeito às diferenças, em autonomia; aquela que compreende a complexidade da vida em sociedade, do exercício da democracia, da paz."
 
Clara Charf, 90 anos - Homenagem das Mulheres do PT
Publicado em 17 de jul de 2015 - Homenagem da Secretaria Nacional de Mulheres do PT, Assista ao vídeo produzido pelo PT em homenagem à Clara Charf.
 

Comentarios

  1. antonio lourival alves de almeida

    O Brasil precisa de milhares de Clara Charf,de Dilmas,de Raqueis,de mulheres de fibras que não deixaram a história a sua margem,foram partes dessa história com vigor e amor ao seu próximo.Enobreceram seus valores individuais coletivando-os,transformando-os em muitos,sem temor e com uma garra que falta em muitos.Parabéns Clara Charf seu exemplo permanecerá vivo e será iluminado de glórias futuras desse povo brasileiro que tanto amas!

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