17 de março, 2014
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50 anos de ordenação: Padre José Oscar Beozzo, o pastor e intelectual a serviço do povo e da Igreja

Neste domingo, no FACE do fotográfo Douglas Mansur, CELEIRO DE MEMÓRIA, foram postadas várias fotos da Comemoração dos 50 anos de Ordenação do Padre Oscar Beozzo - que  eu conhecia seu trabalho e trajetória desde os anos 80 em SP. Conversei com duas ou três pessoas hoje sobre ele e diziam que não o conhecem. Para ter a dimensão de seu trabalho intelectual, a relação dele com Papa Francisco é tão boa que ele escreveu o prefácio de um livro que saiu sobre ele na Itália e na Espanha, e está para sair no Brasil. Por isso, resolvi pesquisar e postar estas matéria sobre a trajetória dele. E dentre os vários textos que consegui selecionar, fomos presenteados com dois textos publicadas no jornal  DEBATE da cidade de Lins, através do jornalista Emerson Secco, que gentilmente nos cedeu também fotos.

O padre José Oscar Beozzo (foto) completa 50 anos de ordenação no dia 14 de março. Um dia depois, haverá uma missa em ação de graças presidida pelo bispo dom Irineu Danelon na Catedral Santo Antônio. No dia seguinte, haverá outra missa solene na paróquia de São Benedito. Ordenado em Roma em 1964, padre Beozzo nasceu em Santa Adélia (SP), mas veio para Lins antes completar um mês. Em 1998 recebeu o título de Cidadão Linense. Mas, de fato, o padre, teólogo e historiador é um “cidadão do mundo”. Doutor em história social pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em sociologia da religião pela Université Catholique de Louvain (Bégica), entre tantos outros títulos, tem quatro livros publicados. Padre Beozzo fica a maior parte do tempo em São Paulo, onde trabalha no Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular, no bairro Bela Vista. É pároco da igreja de São Benedito, em Lins. NR: Jornal Debate, materia publicada em 02/02/2014.

Aos sete anos, nasceu a convicção de ser padre
 
Hoje, às 18 horas, missa solene será celebrada na paróquia de São Benedito, onde o padre Beozzo atua desde 1976.
 
Aberta anteontem, no Museu Histórico e Arqueológico de Lins, uma exposição de livros e objetos que marcaram os 50 anos de vida sacerdotal do padre José Oscar Beozzo. Ele foi ordenado em Roma, no dia 14 de março de 1964.
 
Ontem foi celebrada uma missa em ação de graças na Catedral de Santo Antônio. E hoje haverá outra celebração, a partir das 18 horas, na igreja São Benedito, onde Beozzo atua desde 1976.
 
Sexta-feira, no ato de abertura da exposição, o Debate ouviu o padre de 73 anos, que acaba de escrever o prefácio de um livro sobre a vida do Papa Francisco lançado na Itália e Espanha e prestes a chegar ao Brasil.
 
Debate- Como está sendo esse momento para o senhor?
Beozzo – É um privilégio poder estar aqui em Lins. Já são 33 anos em São Paulo, mas é aqui o meu chão, meu lugar, vivi sempre aqui, fiz minha primeira comunhão na Catedral e desde 1976 estou na São Benedito, antes na FAL, Serviço Social, ITEL, então, minha vida transcorreu muito em Lins e ainda continua porque eu guardei o vínculo com a São Benedito, com as comunidades que eu acompanho e com as pessoas que foram colegas de trabalho, ex-alunos...
 
Debate – Como começou a sua vida religiosa?
Beozzo – Eu fui ordenado no dia de hoje, 14 de março de 1964. Lembro que no sábado seguinte fui atender confissões no santuário da Madona Del Repouso, na periferia de Roma. Foi uma dificuldade porque no santuário tinha gente falando dialeto siciliano, da Campanha, de Nápole e eu fazia um esforço para entender e dar uma orientação. Aí descobri que na área popular ninguém fala o italiano, falam-se os dialetos da sua casa na confissão. Foi meu primeiro choque. Depois, terminei os exames na Gregoriana e fui fazer um curso na Alemanha. Ali também o corre-corre de atender gente numa língua que eu ainda não dominava, estava estudando. A primeira extrema-unção que eu dei foi lá, na Alemanha, para uma senhora de idade. Depois fui para a Bélgica estudar. Aos domingos, trabalhava em uma paróquia em Bruxelas, uma paróquia interessante, no centro, que tinha uma boa experiência litúrgica. Aprendi muito desse trabalho de preparar, acolher. Era uma paróquia bilíngue, porque de manhãzinha vinham os feirantes, todos falando flamengo, depois a missa solene era celebrada em francês, eu tinha que me virar, terminava à noite, pegava o trem e voltava para a universidade. No ano seguinte, eu comecei a trabalhar na paróquia universitária atendendo aos brasileiros e latino-americanos. Durante quatro anos foi assim.
Foto acima, FACE Douglas Mansur, Celeiro da Memoria.
 
Debate – Quando despertou a ideia de ser padre?
Beozzo - Desde muito pequeno eu tinha vontade, mas na minha primeira comunhão, aos 7 anos, prometi para mim mesmo que iria trilhar por esse caminho. Meu pai não queria. Eu pedi umas três, quatro vezes e ele dizia não. E aí, foi minha professora, dona Augusta, em outubro de 1951, que falou para mim: vamos fazer um tríduo (oração que se faz em três dias consecutivos) para Santa Terezinha. Então, 6 horas da manhã, ia à Dom Bosco com ela e a gente rezava. Ela disse: quando terminarmos o tríduo você fala com seu pai outra vez. Eu fui e meu pai falou: bom, se você quer (risos). E no ano seguinte, em 1952, eu comecei o seminário aqui na Nossa Senhora do Rosário e fiz seis anos.
 
Debate – Padre, como é a sua relação com o Papa Francisco
Beozzo – Muito boa, eu escrevi o prefácio de um livro que saiu sobre ele agora na Itália e na Espanha, e está para sair no Brasil. Eu o conheci em Aparecida, durante a 5º Conferência, porque ele estava na comissão de redação, mas não tive um contato pessoal direto, celebrando no altar, cruzando, mas tinha conhecimento. (NR: foto ao lado Igreja São Benedito, Lins-SP) Não imaginava que ele pudesse ser eleito por causa da idade (foi o segundo mais votado na eleição anterior). Tem-se um papa que renuncia por causa da idade e elege-se outro que já tinha 76 anos. Eu pensava: pelas qualidades, sim, pela idade, não. E de repente, ele foi escolhido e eu fiquei muito feliz.
 
Debate – Qual a maior mudança que o Papa Francisco deve trazer para a Igreja Católica. Ele completou um ano, dia 13, está correspondendo às expectativas do senhor?
Beozzo – Eu penso que em muitas coisas ele foi além da expectativa. Eu senti quando ele escolheu o nome. Ele escolheu Francisco, e Leonardo Boff gosta de repetir que Francisco não é um nome, é um programa (de vida). E se a gente perguntasse: o que há em Francisco? No primeiro encontro com a Imprensa ele falou: o cardeal Umes, quando começaram os votos, subia e me animava. E quando passaram os 2/3, ele me abraçou e disse: não se esqueça dos pobres. E ele disse que naquela hora caiu a ficha, pensou em Francisco e assumiu o nome. E ele tem agido assim. No dia do aniversário do Papa, sempre vinha uma orquestra da Alemanha e Francisco disse que não queria nada disso e trouxe uns moradores de rua para comer com ele. Não trouxe nem príncipe e nem cardeal. No dia do Lava Pés, que é sempre muito solene em Roma, se faz na Catedral de São João de Latrão, o Papa lava os pés dos cônegos. Ele foi a uma casa, tipo a Fundação CASA no Brasil, lavar os pés de menores infratores, entre os quais, meninos, meninas, uma muçulmana. Com a vida, ele está tentando mostrar isso. A outra questão de Francisco é o compromisso muito firme com a paz e o meio ambiente.
Que Igreja Católica temos no Brasil? vista pelo historiador J.O. Beozzo * 26/07/2013foto acima (Celeiro da Memória): Zé Vicente (músico e animador cultural), Pe. Beozzo, D. Pedro Casaldáliga (Bispo Emérito de S, Felix do Araguaia e Herbert José de Souza, Betinho (IBASE e Campanha Natal e Brasil Sem Fome)

JOSE OSCAR BEOZZO é um dos padres mais bem preparados e inteligentes que a Igreja do Brasil possui. É teólogo, historiador, sociólogo, assessor de Comunidades Eclesiais de Base e animador da Leitura Popular da Biblia entre outras atividades. Pubicamos aqui um pequeno relato do tipo de Igreja que o Papa Francisco vai encontrar no Brasil. Ele elenca os principais desafios que merecem consideração. Leonardo Boff

O Papa Francisco acrescentou à anterior programação de Bento XVI para a JMJ, uma peregrinação pessoal ao santuário de Aparecida. Ali, em maio de 2007, participou da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e coordenou a redação do Documento de Aparecida.
 
Irá como peregrino ao encontro de expressão antiga, mas muito viva do catolicismo brasileiro, pois Aparecida atrai mais de 10 milhões de romeiros por ano. É um catolicismo que deita raízes no passado, com seus santuários plantados à beira dos rios – os antigos caminhos coloniais – ou ao longo do mar, por onde se escoava o açúcar dos engenhos.
 
Há um fio invisível que une Bom Jesus de Pirapora no rio Tietê, ao Bom Jesus da Lapa, à beira do Rio São Francisco e que alcança o santuário de São Francisco das Chagas de Canindé no Ceará ou ainda o Bom Jesus de Matosinhos em Minas Gerais e a catedral do Bom Jesus de Cuiabá, no longínquo Mato Grosso. Trata-se do mesmo catolicismo que Fafá de Belém irá evocar, ao trazer para o Papa, os (foto ao lado, Pe. Beozzo, D. Paulo Evaristo Arns e Fernando Altemeyer) ecos da grande procissão do Círio de Nazaré. Será a Virgem do mundo indígena da bacia amazônica contracenando com a Virgem negra das fazendas de café tocadas pelo braço escravo no Vale do Paraíba paulista e fluminense, ou com N.S. da Penha em Vitória e N.S. da Conceição da Praia, em Salvador. A cada 8 de dezembro, parte dali o cortejo das filhas de santo, com seus cântaros de água de cheiro, para lavar as escadarias da Igreja do Bonfim.
 
NR: várias fotos abaixo do face CELEIRO DA MEMÓRIA do dia da missa pelos 50 anos em Lins-SP, na Paróquia São Benedito.
 
Esse catolicismo tradicional ganha rosto militante e libertador com as muitas Romarias da Terra e das Águas promovidas pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) ou com o XIII Intereclesial das CEBs que acontecerá em janeiro próximo no Juazeiro do Pe. Cícero, com o tema “Justiça e Profecia a serviço da Vida” e o lema “CEBs, romeiras do Reino no campo e na cidade”.
 
No Rio, o Papa tocará o contraste de um catolicismo, que respaldado, na década de 30, por mais de 98% dos brasileiros que se declaravam católicos, sonhou com uma nova cristandade e erigiu no alto do Corcovado a estátua do Cristo Redentor, que devia reinar sobre a cidade e o país. Hoje o Rio é a capital estadual com o menor percentual de católicos e a maior porcentagem dos que declaram “sem religião”. Na sua periferia, os católicos viraram minoria frente aos fieis das Igrejas batistas e das muitas igrejas pentecostais. Passeando o olhar pelas favelas dos morros do Rio e na sua visita à Comunidade de Varginha, no complexo de Manguinhos, o Papa entrará em contato com uma franja do Brasil de mais de 100 milhões de afrodescendentes, mas terá  ao seu lado nas missas, uma maioria de bispos e padres de origem branca e europeia, com escassa presença negra!
 
Durante a JMJ, os 2 milhões de jovens que estarão com o Papa serão acompanhados ao vivo por vasta audiência no Brasil e mundo afora. Aqui reside outro rosto da Igreja, o de um catolicismo mediático, cuja face mais visível são os padres cantores e as redes católicas de TV: Rede Vida, Canção Nova, TV Aparecida, TV Século XXI, com fortes laços com a renovação carismática católica. Essas redes são, entretanto, pálida presença frente ao poder mediático de uma IURD, com a Rede Record de Televisão ou as intermináveis horas alocadas nos outros canais de TV a diferentes igrejas pentecostais.
 
Para a Igreja católica, são muitos os desafios de hoje: Como passar de um catolicismo tradicional e apenas nominal a um catolicismo de opção e a uma fé atuante? Como transitar de um catolicismo rural para sua vivência no contexto da cultura urbana, técnica, científica e mediática? Como implantar uma Igreja-comunidade, numa sociedade de extremado individualismo e competição? Como viver modesta e frugalmente, atentos à crise ambiental, na contramão de um consumismo sem freio nem medida? Como atuar em solidariedade com os pobres, empenho nas lutas por justiça e superação das desigualdades, discriminação racial e violência, de forma corajosa e cidadã no campo social e político, no momento em que cresce a tendências de espiritualismos desencarnados?
 
Como falar à juventude, depois que se rompeu o vínculo da transmissão da fé no seio das famílias, mas surgiu também renovado anseio por justiça, paz e cuidado com a criação? Como aprofundar a reflexão sobre sentido da sexualidade humana, do amor, do prazer, exercitando escuta e misericórdia frente a sofrimentos e perplexidades neste campo? Como responder ao grito das mulheres, cuja emancipação e aspiração a igual dignidade em todas as esferas da vida, não é suficientemente acolhido nas estruturas da Igreja? Como mover-se, enfim, nos espaços do crescente pluralismo religioso da sociedade brasileira, aprendendo a dialogar e a cooperar ecumenicamente para o bem comum, com todas as pessoas, nas diferentes igrejas, religiões e filosofias de vida?
 
J.O. Beozzo 26/07/2013 * Historiador, coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular/ CESEEP.

"O Vaticano II é o elemento estruturante da teologia de João Batista Libânio".  Entrevista especial com José Oscar Beozzo * Sexta, 31 de janeiro de 2014 

João Batista Libânio é o o mais fecundo autor teológico brasileiro na produção de tratados que pudessem ajudar os estudantes a aprofundar os temas teológicos abordados em sala de aula, testemunha o teólogo e historiador da Igreja brasileira.
 
Ao refletir sobre o legado e pensamento de João Batista Libânio, teólogo, jesuíta, autor de uma vasta obra teológica, que celebra, neste ano, 80 anos de vida, José Oscar Beozzo, especialista em história da Igreja, oferece, nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, um panorama da história da Igreja nos últimos 50 anos.
 
Para ele, a experiência do Concílio Vaticano II, seu debate teológico e eclesial, sua postura de diálogo e atenção ao mundo contemporâneo, sua opção ecumênica, permeiam toda a teologia de Libânio. E Beozzo diz mais: “o Vaticano II é elemento estruturante de sua teologia. Esta se enriqueceu depois com toda a perspectiva latino-americana que brotou da experiência das Igrejas no continente, de sua vida religiosa inserida e das grandes Conferências Gerais do episcopado latino-americano de Medellín a Aparecida”. Segundo Beozzo, graças ao seu “incansável e disciplinado acompanhamento crítico da produção teológica brasileira, latino-americana e internacional, Libânio tornou-se mestre em preparar balanços abrangentes e penetrantes dos rumos da teologia contemporânea”.
 
A entrevista foi publicada na revista IHU On-Line, J. B. Libânio. A trajetória de um teólogo brasileiro. Testemunhos, no. 394.

José Oscar Beozzo é padre, teólogo e coordenador geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular – Cesep. Tem mestrado em Sociologia da Religião, pela Université Catholique de Louvain, Bélgica, e doutorado em História Social, pela Universidade de São Paulo – USP. Faz parte do Centro de Estudos de História da Igreja na América Latina – CEHILA/Brasil, filiado à Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina e no Caribe – CEHILA. Também é sócio-fundador da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina – Adital. É autor de inúmeros livros, entre os quais A Igreja do Brasil (Petrópolis: Vozes, 1993) e A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II: 1959-1965 (São Paulo: Paulinas, 2005).
 
"O Vaticano II é o elemento estruturante da teologia de João Batista Libânio".
Entrevista especial com José Oscar Beozzo 
 
IHU On-Line – Seu primeiro encontro com Libânio (NR: foto abaixo) foi em Roma, nos anos do Concílio Vaticano II (1962-1965), quando ele era diretor de estudos do Pontifício Colégio Pio Brasileiro. O que marcou esse período, destacando a importância de Libânio como orientador dos estudantes brasileiros? Como o processo conciliar repercutia entre vocês?
 
José Oscar Beozzo – O Colégio Pio Brasileiro teve o privilégio de se tornar a residência do Cardeal Agostinho Bea, responsável pelo recém-criado Secretariado para a União dos Cristãos, o mais significativo organismo conciliar da fase preparatória do Concílio. O Secretariado representou a grande novidade para estabelecer o diálogo com as outras Igrejas cristãs e implementar o propósito ecumênico de João XXIII para o Concílio. Poucas semanas depois de criado João XXIII pediu ao cardeal Bea que se ocupasse também do diálogo com o mundo judaico. O Cardeal reunia regularmente a direção e os estudantes do Pio Brasileiro para colocar-nos a par da preparação do Concílio e para informar as iniciativas e os passos concretos do Secretariado. Por vezes, convocava-nos para dar as boas-vindas a visitas ilustres, como o primaz da Igreja Anglicana, o arcebispo de Canterbury, o Dr. Fisher, que foi recebido por João XXIII e logo depois veio ao Pio Brasileiro para encontrar-se com o Cardeal Bea. Nós o acolhemos festivamente na entrada do Colégio contrastando com a recepção fria e quase anônima que lhe fora dispensada pela Cúria Romana. Padre Libânio chegou ao Pio Brasileiro, como jovem padre. Terminara sua teologia em Frankfurt na Alemanha e vinha substituir o Pe. Marcelo Azevedo, como repetidor dos estudantes de teologia. Para os estudantes de filosofia, o repetidor na época era o Pe. Luciano Mendes de Almeida, depois bispo auxiliar de São Paulo, por duas vezes secretário-geral da CNBB e, finalmente, seu presidente por outras duas vezes, já como arcebispo de Mariana-MG.
 
Libânio no papel de repetidor
 
A função do repetidor era de orientar pessoalmente cada estudante nos seus estudos. Ajudavam-nos e muito ao darem um panorama geral de cada disciplina que iríamos estudar no semestre seguinte. Apontavam as principais questões envolvidas, o debate existente e a posição das diferentes escolas de teologia. Dentro da vasta bibliografia de cada professor, indicavam os livros e artigos mais relevantes. Poupavam-nos, assim, perda de tempo e leituras que pouco acrescentavam.
 
Tarefa difícil para Libânio foi substituir naquela função o Pe. Marcelo Azevedo, por conta de sua competência e o brilho. Libânio desempenhou muito bem e com igual brilhantismo o papel de repetidor. Sob certo ponto de vista, foi até melhor repetidor, pois não despertava aquele respeito reverencial que nos mantinha um pouco distantes do Pe. Marcelo.
 
Aberto o Concílio a 11 de outubro de 1962, o Pio Brasileiro envolveu-se intensamente no seu desenrolar, não apenas pela presença do Cardeal Bea na casa, pelo contato com muitos de nossos professores da Gregoriana que eram peritos conciliares e consultores das comissões, mas por três outras felizes circunstâncias.
 
Bem depressa, estabeleceu-se um intercâmbio diuturno entre os bispos brasileiros hospedados na casa da Ação Católica Feminina italiana, a Domus Mariae, situada no número 481 da Via Aurelia e os alunos do Pio Brasileiro, moradores da mesma rua, um pouco mais adiante no número 527, que ficava na mesma calçada.
 
O desenrolar do Concílio
 
Os contatos informais dos bispos com seus seminaristas foram logo enriquecidos por duas outras iniciativas: aos domingos os bispos de um determinado regional da CNBB vinham de manhã falar aos estudantes sobre a Igreja do Brasil, cobrindo assim realidades tão diferentes como a dos pampas gaúchos, a da floresta amazônica ou dos sertões nordestinos. Tivemos assim a ocasião de conhecer não apenas quase todos os bispos, mas a situação específica da Igreja em cada região do país. Uma segunda iniciativa que se consolidou foi a da vinda de um bispo para almoçar conosco a cada dia e partilhar, logo depois, no horário de recreio, o que havia acontecido pela manhã na aula conciliar: os temas discutidos, as intervenções mais importantes, sua impressão pessoal. Além dos boletins de imprensa diários em língua italiana e portuguesa, lidos no refeitório, podíamos conferir, assim, com participantes e testemunhas oculares suas impressões, comentários, aclarações acerca do desenrolar do Concílio.
 
As conferências da Domus Mariae
 
Mais instrutivas ainda do ponto de vista teológico, eram as conferências da Domus Mariae que os teólogos mais em vista do Concílio vinham proferir de noite para os bispos brasileiros e que, nós, estudantes, íamos furtivamente assistir dos balcões do segundo andar do grande salão de eventos da casa. Ali, pudemos ouvir todos os grandes teólogos do concílio, de Karl Rahner SJ a Henri de Lubac SJ, de Yves Congar OP a Hans Küng, de Edward Schillebeeckx OP, a Bernard Haring CSSR, Joseph Ratzinger, Lebret, OP; bispos como Sergio Mendes Arceo, de Cuernava no México, Alfred Ancel, de Lyon na França, Mons. Bogarín, do Paraguai, ou os Cardeais Leo Suenens, Agostinho Bea, Giacomo Lercaro, Joseph Cardijn ou ainda teólogos protestantes como o professor Oscar Cullman e os monges de Taizé, Max Thurian e Roger Schutz ou ainda membros ou especialistas das Igrejas Orientais: Andrej Scrima, teólogo do Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Athenagoras, Mons. Neophytos Edelby da Igreja Melquita e Frei Christophe René Dumont OP do Centro Istina de Paris. Não faltaram leigos e leigas, auditores do Concílio, entre os quais, Vitorino Veronezzi, o casal mexicano do Movimento Familiar Cristão, José e Luz Alvarez Icaza, o escritor, membro da Academia Francesa de Letras, Jean Guitton e a presidente do Movimento Feminino Internacional dos Meios Independentes, Marie Louise Monnet.
 
IHU On-Line – O que significou o Concílio Vaticano II na trajetória do pensamento e da teologia de Libânio?
 
José Oscar Beozzo – A experiência do Vaticano II, seu debate teológico e eclesial, sua postura de diálogo e atenção ao mundo contemporâneo, sua opção ecumênica, permeiam toda a teologia do Libânio. Diria mais, o Vaticano II é elemento estruturante de sua teologia. Esta se enriqueceu depois com toda a perspectiva latino-americana que brotou da experiência das Igrejas no continente, de sua vida religiosa inserida e das grandes Conferências Gerais do Episcopado latino-americano de Medellín a Aparecida.
 
IHU On-Line – Depois de um período na Europa, Libânio retornou ao Brasil em 1969. Como a realidade brasileira e latino-americana impactou na construção do pensamento de Libânio?
 
José Oscar Beozzo – Retornando ao Brasil, Libânio (foto) mergulhou na realidade brasileira e também latino-americana. Do ponto de vista pastoral, continua marcante sua inserção numa comunidade de periferia de Belo Horizonte e sua parceria com o falecido Pe. Alberto Antoniazzi na assessoria teológica e pastoral do projeto “Construir a Esperança” que alicerçou o empenho missionário evangelizador para a realidade urbana da região metropolitana Belo Horizonte.
 
Sua participação na equipe de reflexão teológica da Conferência dos Religiosos do Brasil - CRB tornou-o parceiro na busca do necessário suporte teológico para as opções pastorais e os desafios da vida religiosa no pós-Vaticano II e na trilha das opções de Medellín e Puebla. Graças ao seu incansável e disciplinado acompanhamento crítico da produção teológica brasileira, latino-americana e internacional, Libânio tornou-se mestre em preparar balanços abrangentes e penetrantes dos rumos da teologia contemporânea. Sobre a CRB deixou-nos um longo estudo, A reflexão teológica sobre a Vida Consagrada – Período de 1980-2000, publicado por Edênio Valle no Memória Histórica. As lições de uma caminhada de 50 anos: CRB – 1954 a 2004 (Rio de Janeiro: CRB, 2004).
 
Libânio fez parte da equipe de reflexão teológica da Conferência Latino-Americana dos Religiosos - CLAR envolvendo-se em todos os grandes debates pastorais e teológicos da Igreja na América Latina e no Caribe. Quando do Congresso da CLAR, em 2009, foi dado por Libânio um balanço da contribuição teológica da vida religiosa no continente: Vida Consagrada e teologia latino-americana. Saiu publicado no livro de memórias do encontro: Aportes de la Vida Religiosa a la Teología Latinoamericana y del Caribe. Hacia el futuro.
 
Libânio participou ativamente da grande empreitada de se repensar aqui na América Latina, toda a teologia à luz da libertação e escreveu em parceria com Maria Clara Bingemer, uma de suas discípulas diletas, um dos livros da Coleção Teologia e Libertação, sobre o tema da escatologia cristã.
 
IHU On-Line – De modo geral, qual a contribuição de Libânio para a caminhada das Comunidades Eclesiais de Base?
 
José Oscar Beozzo – Junto com um grupo de teólogos, teólogas, biblistas, Libânio acompanhou desde o início (1975) os Encontros Intereclesiais das CEBs. Bem depressa assumiu a tarefa de coordenar a contribuição dos teólogos/as antes, durante e depois dos intereclesiais. Cumpria a tarefa com maestria, distribuindo-os pelos diferentes grupos e plenários para prestarem assessoria caso fossem solicitados, mas também para acompanhar como cronistas cada aspecto do encontro. Incumbia-se ainda da tarefa de provocar a cada um, cada uma, para que, terminado o encontro e dentro de prazos curtos, escrevesse um artigo mais pensado sobre determinados aspectos do intereclesial: suas celebrações, suas reflexões temáticas, seus conflitos, a prática pastoral e a reflexão teológica que emergiam dos relatos. Isso permitiu que de cada intereclesial, as CEBs e a Igreja do Brasil pudessem contar com um volume temático da REB ou da Vida Pastoral ou mesmo de livros que recolheram essas contribuições. Inestimável essa contribuição para que não se perdesse nem a riqueza humana e eclesial destes eventos, mas que seguissem ajudando a iluminar e alimentar a caminhada das CEBs.
 
IHU On-Line – A partir do pensamento e da prática de Libânio, o que deve continuar repercutindo na caminhada da Igreja?
 
José Oscar Beozzo – Em tempos de crise no campo da formação em geral, Libânio é um marco referencial pelo menos sob três aspectos:
 
— O cuidado e atenção que sempre dedicou ao processo de formação de leigos e leigos na Pastoral da Juventude e Universitária, nas pastorais e nas CEBs.
 
— Seu empenho de toda uma vida na preparação teológica dos estudantes da Companhia de Jesus e de quantos buscavam uma educação teológica séria e aberta, leigos, leigas, ou candidatos à vida presbiteral e religiosa. Esse tirocínio iniciou-se no Pio Brasileiro e prosseguiu nos longos anos de docência no ISI (Instituto Santo Inácio, hoje Faculdade de Teologia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus). A docência como vocação levou Libânio a ser o mais fecundo autor teológico brasileiro na produção de tratados que pudessem ajudar os estudantes a aprofundar os temas teológicos abordados em sala de aula.
 
— A preocupação de que a teologia não fosse um exercício abstrato, distante da realidade ou simplesmente acadêmico, voltado para o diálogo com os seus pares, mas que seu diálogo fosse com a vida das pessoas e a pastoral da Igreja.
 
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto que não foi perguntado?
 
José Oscar Beozzo – Gostaria de enfatizar o legado de Libânio como educador, na linha da maiêutica socrática, introduzindo as pessoas na arte da reflexão e do pensamento regrado, fundamentado e finalmente prático. Destaco duas de suas publicações nessa linha. No A arte de formar-se, Libânio deixa-se guiar pela pergunta: “qual é a arte de formar-se uma inteligência crítica, bem estruturada, em vez de um armazém entulhado de conhecimentos? Como aprender a pensar e a conhecer?”.  Libânio aponta o que chama de os cinco pilares da formação: “aprender a conhecer e a pensar, aprender a fazer, aprender a conviver com os outros, aprender a ser e aprender a discernir a vontade de Deus” .
 
Nesse opúsculo, Libânio já anuncia uma obra mais alentada, na mesma direção, que saiu anos depois pela Loyola: Introdução à vida intelectual.  Retoma de certo modo o ambicioso projeto do tomista Sertillanges, com o seu clássico A vida intelectual: espírito, condições, métodos . Acrescenta, entretanto, ao saber teórico do mestre dominicano, sugestões bem práticas, indicando “o caminho das pedras”, para o iniciante nesta difícil e fascinante aventura do conhecimento. Parte da intuição de fundo que não se estuda só com a inteligência: “É todo o ser humano que se compromete com as lides intelectuais” . Divide seu trabalho em duas partes, dedicando a primeira às atitudes fundamentais da vocação intelectual e a segunda a diversos aspectos da vida de estudo: da reunião de grupo, ao estudo de um tema; da produção de uma monografia aos muitos tipos de leitura e ao ensino acadêmico. Para cada um desses pontos, abundam as sugestões práticas de quem já passou por longo tirocínio e aprendizado, acumulando experiência e sabedoria que são partilhadas generosamente.

Foto: Tilde Vernucci, Pe. Beozzo, populares e o Deputado Est. Adriano Diogo (PT SP).
Foto: processo do DEOPS na época da ditadura, perseguição política contra o Pe. Beozzo________________________________________________________________________

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